domingo, 8 de novembro de 2015

Realizações

Este texto não tem uma mensagem final, nem levanta problemas. Pelo contrário, apenas deixa registrada as soluções que eu encontrei para alguns questionamentos. É uma pena que seja assim, tão sem graça. Mas... é realmente importante pra mim escrever estas respostas - tanto como maneira de fixá-las na minha cabeça como para finalizá-las. As questões que eu havia feito a mim são basicamente: o que fazer com minha vida agora que não tenho objetivos e a felicidade não mora no futuro, mas aqui e agora que escrevo neste momento? Pra quê viver? 
Sobre "pra quê viver" eu já tenho minha resposta. Tá lá no final deste blog, texto sobre o Tudo. Quanto o que fazer pragmaticamente, aqui estão as respostas.
-----------------------------------------------------------------------
Organizando o dia, fiz uma pesquisa curta - porque não foi necessário demorá-la - sobre aquilo que convém acontecer cotidianamente na minha vida. 
O cotidiano deve ser recheado de coisas básicas e óbvias, pois a felicidade não nasce da complexidade, e nem é bastão que se apegue e diga "agora sou feliz". Não, senhor. Felicidade é a coisas simples. O prazer de ler não consiste em terminar o livro, mas é o súbito momento em que você lê algo, arregala os olhos e prende a respiração porque está excitado com a informação na tua frente. O mesmo da felicidade. Ela não está no final de algo, e nem é uma conquista, mas os curtíssimos momentos que funcionam como combustível ao nosso corpo (ou sopro para a alma, como queira). Curtíssimos mesmo. Por exemplo, a risada que você deu e durou 30 segundos, o abraço de uma eternidade mas que já foi embora assim que você se despediu.
Acho importante dizer que fico preocupado que pense que eu esteja fazendo papel do ditador da felicidade, o cara que não aguenta ver uma tristeza e já receita remédio ou faz discurso motivacional. De forma alguma sou um bobo sorridente que acorda com um pote de margarida enfiada na cara. Na realidade, meu conceito de felicidade é prático e inclui a dor, pois não creio que são coisas que se contradizem. Se felicidade for conexão, sinceridade, desafio, pausa, tudo isto abraça a dor.
Veja bem: ser feliz seria estabelecer os pressupostos que me garantissem tudo isto. Conexão para estar associado com os seres ao meu redor, causando o pertencimento e o carinho pelos entes orgânicos e inorgânicos; sinceridade para enfrentar os monstros e os conflitos mais fodidos da mente humana; desafio para não atravancar na mesmice da comodidade da inflexibilidade da falsa segurança; pausa porque respirar é preciso. E onde entrar a dor? Em tudo. Necessito me conectar com minha dor, desafiar o cotidiano e dizer o que dói, ter coragem pra enfrentar minhas dores e pausa para senti-la com cuidado e carinho. 
Ser feliz, então, é permitir os pressupostos para que eu possa me realizar com tudo isto que acabei de falar. E creio ter encontrado o tal do obvio e básico <Santo Deus, como amo princípios, princípios e princípios! >
Vamos lá: saúde foi a primeira coisa, porque amo ter fôlego pra fazer sexo, e porque gosto da ideia de pureza corporal. Assim, escolhi pequenos hábitos que atendessem esta necessidade - ser saudável -, como beber água de manhã e me alongar durante o dia. Mas vou não vou me forçar a fazer coisas extravagantes como correr e fazer exercícios. Minhas experiências passadas com o comprometimento associado à pressão não deram certas Que tudo flua naturalmente.
Ainda neste aspecto da saúde, coloquei o descanso como prioritário. Não dormir é horrível, sinceramente.
Vejo a saúde de uma forma um pouco mais amplo do que só cuidar do corpo. É da consciência corporal que estou falando, moça. Respeitar meus limites, conhecer minha dor e festejar minha aparência, porque acredito que ela é fundamental. Faço um apelo não à beleza, mas ao Belo. Sejamos Belos, vamos transmitir o frescor do Belo. Se vestir, se maquiar, pentear o cabelo, passar perfume, desodorante, tudo isto é essencial para a convivência humana. É demonstrar respeito ao outro que, pelo amor de Deus, possui nariz. É tornar o ambiente mais vivo e interessante, com as chamas de nossa natureza vivas. Fala sério, não é lindo ver gente linda e arrumada? Não é lindo ver gente que se veste da forma como quer? Não é lindo ver a diferença que as roupas nos proporcionam? 
Obviamente, existem roupas que vieram ao mercado pra que nós, consumidores burros, compremos. Mas estas daí não proporcionam a diferença. Eu tô falando da mistura e do prazer de criar. A artista cria e diz sobre ela, sobre o momento e sobre o mundo quando lança pra fora sua criação. Cuidar da aparência é isto: criação. Falar de suas origens, mostrar o que ama, dizer o que pensa. Nada disto tem a ver com botar a aparência como porta de entrada para a felicidade, ou comprar roupas caras. Quem pensar assim é porque não entendeu bulhufas do que eu disse. Então repito: crie e recrie o modo de se expressar com a realidade do cotidiano. O guarda-roupa é um modo de aliviar as coisas presas na gente. Grite!
Saúde e aparência. Grandes pressupostos para eu ser feliz (nos termos acimas apresentados).
Chega de falar disto. Vamos falar sobre o restante: tempo, espaço e auto-empatia.
Tempo pra fazer tudo. Tempo pra tudo; pra ser feliz e pra chorar. Pra conseguir o que eu desejo e pra fazer aquilo que me obrigam a fazer. Tempo pra pensar, e tempo grande pra não pensar - isto realmente ajuda na hora de tomar decisões. Tempo pra acordar e comer, tempo pra vadiar e trabalhar. Não há muito o que escrever, pois já foi dito pelos Titãs isto tudo, ó:

"Tenho tempo pra gastar 
Tenho tempo pra passar a hora 
Tenho tempo pra desperdiçar 
Tenho tempo pra jogar fora 


Tempo de sobra pra levar 
O tempo que resta pra ir embora 
Tempo de sobra pra esperar 
O tempo que resta a partir de agora 

Eu realmente não sei 
Que horas são 

Tem lugar de sobra até aonde posso ver 
Tem espaço bastante pra se perder 
Tem lugar de sobra até aonde posso enxergar 
Tem espaço bastante pra ter que parar 

Tenho o dia inteiro pra andar 
Eu quero o dia todo pra andar sem direção 
Tenho quatro paredes pra derrubar 
Eu quero quatro paredes pra pôr no chão 

Eu realmente não sei em que mês estamos 
Eu realmente não sei qual é o dia do ano 
Eu realmente não quero saber "


O tempo é importante demais, gente. Pressa não é minha praia, já viram.

Sobre o  o espaço, é o que compõe o tempo. Se desejo o meu tempo pra fazer as coisas, desejo o meu espaço pra realizá-las. Então, é necessário que ninguém fique no meu pé me julgando, para que meu coração sozinha decida os meus movimentos e rumos. Já cansei de pessoas falando como eu devo fazer isto, e ainda mais da pressão para ser uma estrela. Zoado, mas eu te explico.
Olham pra mim e dizem: puxa vida, como é jovem! Aproveite o tempo que tem, porque depois, acaba!
Creio que estas pessoas, quando dizem isto, supõem estar aconselhando, ou ensinando algo que consideram valioso. E depois complementam, descrevendo como a vida é cruel, como o mercado de trabalho é cruel, como o dinheiro é cruel, e como a vida do jovem é boa etc.
Olha, demônio. É impossível que eu fique tranquilo neste sábado sabendo que futuramente, não terei tempo pra nada. Ou eu me pressionarei pra me preparar pro mercado de trabalho (estudando bastante, indo bem na faculdade, aprendendo línguas etc), e neste caso, não serei feliz e nem tranquilo e nem calmo o suficiente pra absorver informações; ou eu não me pressionarei, e me sentirei culpado por nada fazer, já que estaria "jogando fora as oportunidades maravilhosas que a vida te dá". Cara, como me sinto mal com isto. Pressão é horrível; supõe competitividade, acumulação de conhecimento, segurança futura; e culpa é pior, porque ninguém é feliz com culpa.
Por isto preciso de espaço. Não me pressionem de nada, absolutamente nada. Se todo homem e toda mulher é uma estrela, não preciso de ninguém pra mandar eu brilhar agora. Farei isto naturalmente sem o remorso que você se sente por ter escolhido uma vida que não te agrada, e por ter tomado decisões que não te agradam.
Me deixa fazer as coisas do meu jeito, da forma como eu entendo que darão certo. Me deixa aprender da minha maneira, me deixa ler da maneira como eu quero. Me deixa planejar da forma como eu planejo, me deixa ter as ideias minhas e nem me diga como realizá-las. Se eu pedir sua opinião, ela será bem-vinda. 
Sim, eu sou responsável pela minha vida. E pra eu fazê-la acontecer, necessito respirar para expandir. Sai do meu pé, inferno de gente que vive de agenda, horário, programação e segurança. Eu sou diferente, sorry.

Quanto a auto-empatia, é o amor que eu tenho por mim mesmo. Sou tão acostumado a escutar os outros, que esqueço de mim. Aliás, todos nós esquecemos de nós mesmos. Ou agimos para o outro, ou agimos segundo algo que pensamos ser a gente, quando na realidade não é (talvez as duas coisas sejam iguais).
No momento, estou usando auto-empatia (não sei porque, não gosto desta palavra), me questionando sobre o que quero fazer como profissão e realização de sonhos. Mas já vejo onde isto vai parar: pressão. Pressão para ser e fazer o que quero. Daí, culpa, ansiedade, etc. Penso que uma melhor opção é observar valores que eu considero em minha vida, e o que melhor prover estes valores, será consequência e provavelmente, profissão. Por exemplo, eu tenho um valor que é a democracia, o que pressupõe o livre pensar. Amo a liberdade e a diversidade de opiniões.
A pergunta é: como desenvolver isto? Como saber lidar com gente que pensa o oposto de mim? Isto é essencial em minha vida.
Tenho o prazer em dizer isto: hoje escuto o discurso militarista e não fico irritado. Escuto o discurso evangelista que ou-você-é-de-Jesus-ou-ama-o-demônio e fico tranquilo. Fico calmo quando ouço alguém falar que o PT alimenta vagabundo. Estas compreensões não são só teóricas, mas abrangem algo magnífico, que é a capacidade de entender os elementos que compõem o mundo diferente do meu. Eu não digo "até entendo, mas...". Digo "entendo, e". Sou capaz de encontrar as verdades nestes discursos acima ditos. Sou capaz dizer: concordo com você.
O meu negócio é deixar de fazer os discursos, coisas excludentes. Chegar numa posição onde não é x ou y, mas z. Isto é um objetivo na minha vida.
E pensando nisto, creio chegar naturalmente onde quero. Veja só: descobri a mediação de conflitos, que trabalha exatamente com isto. E estudo filosofia, que busca analisar as coisas de maneira minuciosa e imparcial (na medida do possível).
Então pergunto: quais são meus valores? Ainda escrevo sobre isto.

Então recapitulo. A felicidade é o conjunto de condições que me permitem seguir em frente na vida. E pra eu seguir frente, necessito de saúde, descanso, tempo, espaço e auto-empatia. Fui.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

?

 Mistério, li por aí, é o infinito do desconhecimento. A impossibilidade de acumular todo o saber sobre determinado objeto. O sol, ainda que relatado, explicado e analisado sob diversos pontos de vistas, ainda será um eterno mistério, porque tudo é mistério, tudo.
Afinal, se para ti, o sol é uma bola de fogo constituída de determinada matéria, que fica em determinado lugar no espaço, e que possui determinadas propriedades x, y e z, refaço então a pergunta: se você já sabe o que é sol, questiono então o que mais ele poderia ser. Ou então, ele é o que pra quem?
E veremos desabrochar o infinito do desconhecimento. O que mais ele poderia ser? Deus, um deus, um símbolo, o coração, a Vida, o conhecimento, uma metáfora, um ícone de um sonho, um quadro, um verso, uma palavra, um nome, apelido, etc. E o sol é o que pra quem? Pra nossa mentalidade, fisicalista até a última gota, pensamos que ele é matéria. Mas e para minha irmã de 9 anos? E para mim quando tinha 5 anos? E para Van Gogh, os egípcios da Idade Antiga e mesmo para os ameríndios, em todas as suas extensões (tribos)?
Miséria, porca miséria, senhor. Olhamos para as coisas e teimamos em perguntar o que elas são, crendo haver nas próprias coisas, a resposta separada de nós. Hoje em dia estou reconsiderando mais a ideia de olhar para elas e me perguntar: o que para mim, para os outros e para outras culturas de diferentes épocas é isto?
E aí vejo como as coisas são tantas, que parece não haver resposta que caiba nesta famigerada pergunta: o que é o sol, afinal?
Mas ainda há um outro mistério além do mistério de tudo, porque nunca saberemos de fato o que algo é. Este outro mistério é absurdo, e começa aqui, neste momento: eu tenho duas mãos, dois olhos, duas pernas, uma boca, um cabelo e um nome. Eu vivo numa coisa redonda perto de outras coisas redondas, em um espaço que não sei quando acaba. O absurdo que é isto, não posso quantificar. Por que duas mãos, dois olhos, duas pernas, um cabelo e um nome?
Que a resposta seja "evolução", "adaptação dos mais fortes": por que diabos isto existe? Por que vivemos no espaço, por que vivemos no planeta, por que há o tudo ao invés de nada? Por que e como tudo é assim? Por quê, meu Deus do céu, por quê?!
Absurdo, espanto ou angústia. Os nomes dados a este mistério com certeza variam, mas representam as mesmas sensações no corpo, que são os olhos arregalados, o aperto na barriga e a leve tontura. Aristóteles sentiu isto, aposto um abraço com você. Platão também. E sabe por que? Porque não passavam de meros mortais como todos nós.
(Detesto o endeusamento que fazem destes caras. Até parece que eles são diferentes de você ou de mim, mais superiores ou melhores. Que Aristóteles tenha escrito e impulsionado a filosofia; que tenha sido um "gênio": não passará de um mortal que chorou a morte de alguém. Um mortal que pode ter tido problemas com o vizinho, e que provavelmente falou algo que machucou alguém. Uma pessoa de sentimentos e tristezas e alegrias. E digo mais: não há nada que este cara tenha dito e que qualquer outra pessoa do mundo não possa ter chegado nas mesmas conclusões. Isto não significa desmerecer o trabalho dele, mas colocar de uma vez por todas a igualdade que esquecemos entre nós. Qualquer um é capaz de ter ideias magníficas, revolucionárias ou brilhantes. O problema é que constantemente temos medo de dizê-las, achando que somos inferiores ou indignos de contribuir para o mundo).
Mistérios. Que eles não sumam, para que a vida se mantenha distante dos fatos inexoráveis e indubitáveis. Que o sol seja mais que matéria, e que possamos sempre saber nada sobre nada, como eternos ignorantes.

Sexo, como sempre.

Sexo é divino. Faço sexo pensando em uma única coisa só: ser o maldito do flagelo que impõe ao escravo todo o prazer que ele merece. Então, neste movimento de ser o dono e origem do gozo do outro, me transformo ao mesmo tempo no servo da pessoa com quem transo. Quando chupo uma mulher, encaro suas pétalas e dobraduras como uma missão minha. A missão é ser escravo dela, fazê-la se deliciar de modo único. E de contrapartida, me coloco em posição de força e comando.
Este paradoxo - ser e não ser rei, ser e não ser servo - é mágico. E para mim, a magia não é feita de somente o fantástico, mas requer também dedicação. Por este motivo, sempre gostei de ir atrás das informações valiosas. Onde é imensamente prazeroso que posso estimular em uma mulher? Qual a força? E a suavidade? 
Uma vez roubei um livro de meu pai, cujo título é "175 Maneiras de Enlouquecer Uma Mulher Na Cama". Este livro é fantástico. Bíblia pro católico, Gita pros hindus, e "175 Maneiras de Enlouquecer Uma Mulher na Cama" para mim, escravo do prazer alheio. 
Claro; não leio e pratico sem questionar. Não sou tolo a ponto de ler minha bíblia de forma literal (cof cof) e sair por aí aplicando a sagrada escritura. Sou cauteloso e cuidadoso.
E o que aprendi lendo este livro? Muita coisa. A priorizar as preliminares, a ter calma, a estimular o pescoço, os seios, o clitóris. Gosto de ter o controle total do corpo do outro, assim, posso realmente dar prazer, ter os movimentos mais precisos, criar os jogos e as regras. 
É deste modo que me torno insaciável com a vontade de dar mais e mais prazer. Inclusive tenho muito vontade de aprender a fazer massagem (de forma profissional, nada ralé). Imagina só, que delícia: ela se deita, eu acendo velas e um incenso. Passo óleo sobre suas costas. Em seguida, trato de ser perfeito com o movimento das mãos. Fazer ela relaxar e tirar todas as tensões. E parte por parte, avanço em seu corpo, até que ela fique perdida de tesão e nunca mais esqueça aquela noite.
Não sei se perceberam, mas sou exigente comigo mesmo na cama. Me esforço muito pra dar prazer a elas. Demais. Mas vale a pena, porque o tesão dela, no final das contas, é o meu tesão. 

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Demônio 2

Ter escrito este último texto me fez bem. Arranquei todo peso, toda massaroca, toda macarronada de ideias. E a conclusão é simples: reprimo determinadas atitudes, e sempre que as encontro no outro, sinto-me irritado; se eu mesmo as cometo, sinto culpa. E como eu havia dito, estou sentindo culpa e ódio por tudo. Bom, agora me resta rever o que tanto reprimo que não se aguenta mais estar preso.
Cito, pois:

- Minha vontade de destruir opiniões, doutrinar pessoas, desconsiderar visões diferentes das minhas e dar ordens
- A não rigorosidade com as ideias. Reprimo a leveza de sustentar uma ideia sem apoio teórico (estou sempre obsessivo a ter argumentos pras coisas, não consigo simplesmente "achar que sim"). Então reprimo minhas crenças espirituais.
- Reprimo meu desejos sexuais, pois imagino que sexo é uma forma de objetificação, e portanto, maléfica.
- O erro. Censuro produções artísticas minhas que carecem de qualquer densidade ou me soam infantis.
- A falta de vontade de escutar empaticamente o sentimento dos outros (se bem que nem tanto isto)
- Meu ódio/falta de paciência/tédio por atitudes dos outros
- A verdade pura e simples: que chamo atenção com muita felicidade. E que gosto de chamar atenção, adoro.
- Minha vontade de fazer nada (mas isto também está mudando)

Os demônios estão a solta. Tudo que é reprimido está agora no ar e escorregadio. O ódio está pulando dentro de mim, chiando, pra falar a verdade. Gostaria de contar como toda esta explosão surgiu.
Fiz um curso da Comunicação Não-Violenta. E com ela, questionei demais o tal do conhecimento, chegando na conclusão de que ler ou não ler não me faz alguém melhor; que ler às vezes não significa nada; que existem outras formas de aprender e que fazer nada é uma ótima coisa (porque sempre me senti culpado de não fazer nada).
Além disto, pude me comunicar melhor con la gente, porque estou mais vulnerável - aprendi a força da vulnerabilidade - e porque entendo que qualquer um é capaz de entender qualquer coisa (sumindo de vez com a ideia de que há assuntos-que-nem-todos-entenderiam-porque-não-leram-a-respeito).
Assim, dediquei praticamente uma semana de nada a fazer. Nada fiz. Não fui à aula, tô enrolando com um projeto, nem comecei um trabalho. Isto naturalmente me levou ao local dos demônios: o que mais seria aceitável? Se não ler e nada fazer é aceitável, o que mais é permitido?
Então liberei as trevas, vasculhei a maldade. A CNV foi a precursora do processo de me aceitar e de me entender.
Pois bem, esta caminhada ao Bosque dos Demônios está sendo assim, bem pesada. Entrei em contato com aspectos chocantes de mim, chegando até a alimentar a maldade nos extremos do imoral. E entendi com clareza esta história de alimentar o Bem e o Mal em nós. Antes esta frase era verdadeira, mas porque eu não tinha contato com a maldade, não podia compreendê-la com o coração. Com este passeio, e com esta conscientização de meu ser, posso dizer que agora tenho a opção da escolha. Mas isto, deixemos pra depois.
------

É isto, o tal demônio. A sombra, o lado oculto que mais odiamos, repugnamos e ignoramos, mas que existe em vigor dentro de nós. Este momento de minha vida está fazendo ressurgir (ou desprender) o lado negativo, minhas aberrações.
É interessante como estou tentado a ler sobre o ocultismo; por que será? Deve ser porque o acho belo, e perigoso. Se a parte da luz estuda filosofia, as trevas estudam o ocultismo.
Enfim, os demônios estão a solta. Estão a solta. O que fazer? Sinceramente, esta é a última pergunta a ser feita.
-----





Demônio

Pois bem. Este mês é a reviravolta dos corpos. Percebo o oposto das coisas, o avesso dos fenômenos. Acordei na casa de uma amiga minha, e com o corpo cansado, cinza em aparência e em natureza, prostrei-me em frente a janela. Vi um gato pular seu muro e invadir seu jardim. Noto o que fez: abocanhou um lagarto. Morto, com a alma espiralada, virou almoço.
Hoje, me levantei e li uma mensagem no celular (que se destinava a um grupo): "Gente, preparem-se para a visão do sofrimento. Há uma pomba morta no meio da rua."
E dentro de mim, o caos. Caos de fato, sem preciosismos. Ando pensando coisas que eu jamais pensaria, imaginando coisas que jamais imaginaria, e quase fazendo o que eu jamais faria. É a figura do demônio que ilumina meu peito, consagrando seu território em meio a um antigo mundo de luz e Deus. O que diabos acontece comigo senão a demonstração clara de que a maldade existe, seja lá tua santidade e beatice? De novo cito Titãs em um texto meu:

"Filantrópico
Samaritano
Generoso
Tão humano

Acumulando raiva e rancor"

É, quanto maior a luz, maior a sombra. Vivi um ideal de perfeição absurdo, acredite. Indo aos extremos da compreensão, do amor e da empatia. Mas agora, tudo se rebela. O mal nasceu em mim, e vejo "Le fleurs du mal" desabrochando nos jardins de meu coração.
De fato, fui atrás da maldade. Li o que em meu mundo se consagra como maldade: psicopatia. Tenho medo de psicopatas, porque eles existem, e não medem esforços. São de fato o mal, concreto e em forma de osso, cérebro e sangue. Estão em todos os lugares e fazem o jogo sujo deles, onde criam as próprias regras, o ponto de partida para tua derrota. Além disto, podem matar sem remorso.
Que besteira a minha, ler histórias de serial killers. Ver o sangue, pensar no sangue, ficar sedento por ele.
 --------

Sim, as coisas estão do avesso. Palavrões e maldições escapam da minha mente de forma natural, e sempre em inglês. "Why don't you kill yourself?"; "I hope you have a slow and painful death"; "Why don't you all just die?". E rio internamente dos movimentos sociais, zombando de cada pessoa que se intitula salvadora do universo. Faço piada do sofrimento alheio. Estou insensível.
E quero ver morte, sangue, dor. Morte, facas e gargantas. Suicídios, suicídios em massa.
-------

Busco uma explicação para este momento absurdo, que pra mim não é tão difícil de entendê-lo: tenho o esforço de ser perfeito segundo meus próprios parâmetros, e assim, persigo esta idealização. Como? Sendo gentil, amoroso, carinhoso, respeitoso, justo, compreensível, responsável, empático, aberto, reflexivo, cuidadoso. Que mais? Procuro não olhar para as mulheres que tenho imenso desejo sexual, vontade insana transar, anseio maligno de ser sádico na cama. Estas coisas são tão fortes pra mim, que não consigo separar o sexo deste componente brutal que é a violência. E quem não reprime a violência?  O resultado é que reúno o apetite sexual com o proibido, e aí, me reprimo em até simplesmente olhar alguém.
O quem mais em mim eu esforço pra ter ou ser? Oras, me esforço pra ser vivo. Existir, pra mim, é uma dádiva; logo, não desperdiço o viver. Me entretenho em várias atividades, experienciando muitas coisas. Como estamos na época da reviravolta, a única coisa que quero é ficar em casa, dormindo. E foda-se o mundo, foda-se a filosofia, foda-se a responsabilidade, foda-se o trabalho ridículo que em nada acrescenta minha vida. Caralho, como é possível que estes filhos das putas não param UM segundo sequer? Como diabos é possível que queiram que eu faça o trabalho AGORA, nestas condições de vida que eu estou? Pra fazer o trabalho, tenho que ler, estudar, tirar dúvidas e o cacete a quatro. Vá à merda! A única coisa que eu quero é me envolver no escuro, e ficar horas a fio no silêncio. O mundo não tem sentido. Antes de escutar música no youtube, vejo uma propaganda. PROPAGANDA, AGORA?! Como diabos isto é possível no meu mundo, que vocês queiram vender, e sempre com a MESMA VOZ, O MESMO ESTILO, O MESMO SORRISO IDIOTA NO FINAL DO VÍDEO, A MESMA PROMESSA, A MESMA FELICIDADE? Parece até que as pessoas são iguais, e nunca se descontrolam por nada. Porra, mundo.
Continuando. Estava dizendo tudo que eu me esforço a ser. Ah, eu me esforço pra ser sincero (dizer as verdades para que em conjunto, possa se resolver um conflito. Falar a verdade é diferente de ser sincero-cuzão, um tipo de gente que fala bosta a torto e a direito pra depois justificar "era só a verdade, ué". Pau no seu cu, arrombado. Você tem noção de que palavras podem machucar?). Talvez agora eu passe a fazer o mesmo, mentindo ou sendo sincero-cuzão. Isto se insere num contexto maior, que é o de importar com o que os outros pensam.
Pausa pra respirar.
----

Sim, eu me importo. Queria ser como estas pessoas que só falam merda sem se preocupar com nada. Mas não; eu sou rigoroso com as palavras. Busco a verdade, não me contradizer, agradar gregos e troianos. Além do mais, morro de medo de as pessoas terem raiva de mim. Me culpo por tudo, tudo. Nas amizades, era sempre eu o cara a pedir desculpas, mesmo não tendo feito nada. Obrigado, texto, por me lembrar do passado, onde eu desesperadamente pedia desculpas ao cara que zombava de mim, ao outro que fazia merda e ao outro que era grosso e estúpido comigo. Espero que todos vocês morram enquanto assistem à morte de seus familiares mais queridos.
Por isto me dói dizer as coisas, na maioria das vezes. Porque e se a pessoa ficar brava comigo? E se ela quiser nunca mais falar comigo? Que ódio DE MIM. QUE ÓDIO. Por que eu tenho tanta culpa de existir e viver e respirar e xingar e ter desejos sexuais? Que vontade de xingar todas as pessoas que eu conheço e que são minhas amigas; que vontade eu tenho de (sem argumentos, veja bem), criticar os amigos mais próximos meus. E nem xingar mais eu posso. Dizer filho da puta, bicha, viado, arrombado, cuzão, etc; são palavras que "reforçam uma forma de preconceito ETC". Pra puta que pariu tudo, pra puta que pariu. Eu adoro dizer "nego/negão". Me soa carinhoso, e com estas palavras, me sinto muito mais próximo das pessoas de etnia negra. Mas não posso, e pelos mesmos motivos ditos acima. Me sinto extremamente frio quando digo "era um negro de 1,80m".
Acredita que eu tenho medo de olhar para as pessoas negras mais próximas de onde eu estudo? Tenho este medo porque penso que elas vão olhar pra mim e pensarem que eu estou olhando pra elas com preconceito. Se isto não é nóia, não sei o que é: escolho um lugar pra sentar. Olho para uma mesa, decido não sentar lá (por motivos variados). MAS aí eu vejo que tem uma pessoa negra nesta mesa. Tenho MEDO de NÃO sentar e ela pensar que o motivo disto É ELA. Olha que merda de situação.
Medo de tudo, medo de tudo. Culpa por tudo.
Por que me importo tanto com as pessoas? Porque amo elas, caralho. Porque amo e respeito a existência do ser humano. Porque não gosto que as pessoas sofram. Porque amo a humanidade e desejo a todos que tenham uma vida digna, seja lá o estuprador, o nazista ou o ditador tirânico.
Mas agora as coisas estão do avesso. E quero a morte da humanidade.
----

O que fazer com o desejo imenso de mandar tudo tomar no cu mas não ter a coragem de aguentar um mundo contra mim?
----

Demônio. Os valores estão invertidos. Quero fazer o errado. Estou explodindo de ódio, coisa que tanto seguro e repreendo. Estou explodindo de ÓDIO, puro ÓDIO, e só ÓDIO.
----

E claro, cinismo. Cínico e imbecil, porque na prática eu sou um eterno bundão, que morreria de medo de ser cínico de verdade. Na prática eu nunca xingaria alguém. Eu iria perguntar o que ela sente, daria um abraço, e faria o dia dela um pouco mais leve.
Mas meu Deus do céu, que agonia. Que faço eu do ódio? Eu odeio a incompreensão das pessoas; a falta de reflexão delas sobre a própria vida, a contradição de suas próprias frases, a incompetência delas em ajudar pessoas, a mania de julgar e falar merda; a incapacidade de ouvir; a bosta dos comentários no Facebook; os vídeos estúpidos de gente que não estuda/pensa de forma rigorosa os assuntos que expõem, a estupidez dos amantes da ciência que DESPREZAM COM HORROR E CINISMO QUALQUER OUTRA FORMA DE CRENÇA QUE NÃO POSSA SER ATESTADA E COMPROVADA E VALIDADA PELA CIÊNCIA; RAIVA A ESTES FILHOS DA PUTA QUE ATORMENTAM MINHA VIDA E NÃO ME DEIXAM ACREDITAR NO QUE EU QUISER, ESPÍRITO, ALMA, DEUS, REENCARNAÇÃO, MAGIA; RAIVA AOS RIGOROSOS QUE NEM EU QUE NÃO PERMITEM LER BESTEIRA E ACREDITAR NA BESTEIRA; que fazer com toda raiva? Que fazer com a raiva do cara que me disse "Te convenci de tal coisa? Vai pra casa, pensa direito e repensa direitinho". PAU NO SEU CU, ARROMBADO DO CARALHO, FILHO DA PUTA. Eu tenho o meu direito  de pensar como eu quiser, quando eu quiser, e chegar na conclusão que EU QUISER. Não me convença de nada, e nem me mande repensar nas tuas palavras; que fazer com a raiva, santo Deus? Raiva de você, que se diz experiente, e olha para o meu mundo como se eu fosse o jovem imaturo inexperiente. Sabe porque eu te odeio? PORQUE EU ACHO QUE SOU JOVEM IMATURO E INEXPERIENTE. E ACHO QUE SIM VOCÊ É UMA PESSOA MADURA, VELHA E EXPERIENTE. EU ME COLOCO SEMPRE NA POSIÇÃO DE INFANTILIDADE. Eu sou o imbecil que julga pelas aparências e pelo conhecimento. Eu sou o imbecil pessimista que não deixa as pessoas pensarem o que quiserem. Eu sou o cara que odeia, e é o objeto do próprio ódio. Eu sou o idiota que julga, que não compreende, que se acha mais inteligente que os outros, o idiota que julga as pessoas que acreditam em qualquer coisa, o idiota que é incapaz de ouvir, o idiota que é rigoroso, o idiota que não deixa as pessoas serem como elas são.
Eu odeio a humanidade, eu me odeio. Eu odeio quem eu sou. Eu odeio tudo.
----

Isto é o demônio, creio eu. Tudo invertido. Quero agir da forma como eu mais crítico.
----

Não sei mais. O demônio é aquilo que eu/sociedade reprime? Então vou dar uma caricatura do demônio:

Ele não aproveita a vida; gasta horas e horas no facebook; ele tá pouco se fodendo pro fato de ser sustentado pela mãe; ele faz sexo com todas as mulheres possíveis e canta todas elas de todas as maneiras possíveis; ele ignora o sentimento das pessoas, julga todas elas e é duro com todas as pessoas que vê; ele reprime a crença de todas as pessoas que creem sem o sustentáculo da ciência; ele assiste à televisão o dia inteiro; bomba em todas as matérias possíveis; o demônio bebe até destruir o fígado; come besteira até acabar com o corpo; ele não se renova, é sempre o mesmo; ele manipula as pessoas; mata elas; estupra todas as mulheres possíveis, estupra crianças; realiza chacinas; envenena o mundo; gaslight every women; come carne; rouba milhões de empresas; pega crianças, trafica seus orgãos e as esconde no mar; goza na cara de mortos; faz as pessoas chorarem porque gosta disso; é burro (propositalmente); não questiona as coisas (propositalmente); quer tudo do jeito dele.
Senhoras e senhores... O demônio somos nós. Todos nós temos o demônio, e em mim, ele não se segura mais. Ou se segura, sei lá.
-------

Interessante. Tudo que eu odeio há em mim. Eu sou o filho da puta citado acima. E agora? O que fazer com ele?
-----

Sobre o sexo, eu já tenho ideia. Tô ligado que a visão das pessoas sobre flertar não é algo assim tão duro. Eu é que sou muito crítico. Talvez dar em cima de alguém não seja tão ruim assim.
Sobre a violência no sexo... Bom, eu curto ser sádico. O negócio é achar quem queira e aceite isto, numa boa, sem neura.
Sobre a parte de ser um cuzão que não se importa com os outros, que critica, que é duro, que não permite as pessoas a pensarem como quiserem, que quer doutrinar a todos, eu não sei. Cansei. tchau.