Era quinta-feira. O quase fim da semana letiva anunciava sua tarde: raivosa em cores, mas cinzenta dentro de mim.
A expressão do Sol tornava os contornos mais nítidos. Um aspecto natural da beleza era ressaltado sob a luz dourada. Os olhos castanhos possuim cheiro; os olhos negros, origem cultural.
Já os meus, vermelhos de cansaço, e unicamente os meus vermelhos de cansaço, ardiam.
Me arrastava em direção à saída escolar, sob o soar do sino. Apesar de este indicar que o tempo havia passado, não notava presente seu significado. O tempo era uma camada invisível e quase intransponível: era eu escravo dos ponteiros e senhor de uma desesperança aflita mas não contida. Meu vazio prolongava-se pelos braços, pernas e têmporas.
Talvez estivesse afundando no tempo, como um escaravelho na areia movediça.
Ou melhor: eu era consumido pela vastidão infinita de mim. Consumado até as veias por algo distante em medida de dois universos, mas também incrivelmente próximo, grudado em minha epiderme, pele e cabelo.
Saindo pelo portão, avistei um aglomerado de gente e uniformes: minha classe recostava-se no muro da escola e atirava pela epiglote ruídos sonoros, talvez palavras.
A música que meu ouvido habituou-se a escutar era unicamente o vazio silencioso. Escutar a tarde amorfa fazia-me bem. De resto, qualquer som era barulho.
Preparava-me para voltar pra casa e, já conduzindo a mochila nas costas, um sopro de Zéfiro cutucou meu cotovelo esquerdo. Virei-me nesta direção e algo pesado me afundou. A sensação de uma pata de elefante esmagando-me fez meu coração comprimido acudir e voltar a sua existência cardíaca: lentamente as tropas tornaram a marchar e bombardear o sangue anteriormente estagnado, numa lucidez industrial impressionante.
Foram seus olhos castanhos. Seus olhos castanhos estilhaçaram em cacos meus espelhos. Racharam minha imagem estática e desemperraram minhas roldanas anabólicas. O ar tornou-se tragável e sentia lentamente a gravidade pesar. Fui puxado vetorialmente em sua direção, caindo na diagonal: para o solo e seus olhos castanhos.
Pousava eu lentamente sobre seu mundo urbano e agitado.
Dessa forma, compassei minhas pernas até você.
Observei sua camiseta preta sem estampa e seu cheiro venenoso. Andei o mais próximo possível, e parei por medo de seus olhos, olhos castanhos.
Arranquei uma folha de meu caderno e escrevi:
Rua Vitória Capezzini
Bairro Major Andrade
Número: 111
Embaixo, escrevi com mais força:
Tenho baseado
Te entreguei e fugi.
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Duelo de Sombras e Luzes
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Bosque, Arbusto e Bisão
Gozar um espesso pano branco é tão significativo quanto dizer “Bom dia” para Josué, fino homem que nos serve pão.
O gozo, espectro sólido, resto de fantasma: quem sabe não é minha ânima se esvaindo aos poucos? Boca boceja, grita e também fantasia suicídio. Morte, lenta, curta e agonizante.
O que me restou, afinal? Minha ectoplasmática sobra de alma, o gozo grosso, que dormente se agarra no lençol branco.
A colcha branca, as paredes brancas, o branco albino de suas costas, a branca cortina que enleva nossos olhos de leões da selva. Passamos do lívido para o castanho do bosque, minha ruiva apaixonante.
São tantas as pintas, que considero suas costas um amontoado de cheiros exóticos. Os pontos costurados, marrons, sobressaem de sua pele, enquanto passeio firmemente por entre um vão e outro, que me permitem conhecer, dedo por dedo, os rios de teu sangue, as veias de teus mares, as artérias do seu delta, a embocadura principal de teu corpo, uma floresta fantástica, úmida, risonha e carnuda.
Tu és branca, ruiva e magra. Sou uma imensa árvore, grossa e verde. Vivemos juntos, mas separados.
Observo-te nua, fugindo dos sátiros, enquanto dissimula não querer ser possuída. E afinal, não se consome o ato.
Tudo são sorrisos e provocações, gente infantil, aguardando a maturidade de alguma dor séria.
Mas eu, imensa árvore, distante de tuas arruaças, aguardo a deflagração de seu ser adulto.
Um dia, minha ruiva, notarás a dor da falta, e não serás completa como foste nos tempos de sarros, meras provocações, meras esculhambações da vida vadia, maçã leve, balançando calmamente por entre as folhagens do nosso bosque. Minha ruiva, a vida é um moinho. A vida é a dor que consumirá seu olho esquerdo, a boiar na completude da busca. Quando a fruição infantil te sobrecarregar, é porque a preocupação brotará em seus tejos. Tornar-se-ão opulentos, firmes e ricos. Serás sadia, de carnes poderosas e atraentes.
Os sátiros logo buscarão pretendentes, mas reconheço sua indiferença. Seu profundo pesar impede qualquer aproximação.
Tanta dor assim buscará o remédio, solução para as agonias, a aflição de estar completa de vazios. O corpo não promete mais, somente lágrimas corresponderão ao pedido.
E então, sentarás ao meu redor, desejando a Eros que toda robustez de minha figura, árvore inerte, seja tronco em sua coluna vertebral, hirta e certa. Queres a certeza, minha linda ruiva?
Pois assim será tua mágica súplica: reduzo minha eterna sabedoria em um pequeno galinho. Agora, guarda meus finais em ti, e busca a vida lá fora.
Vai ser gauche na vida!
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