segunda-feira, 6 de abril de 2015
Olho Nos Olhos
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Cazuza
Escrever tem destas coisas, né. De tanto exprimir pro mundo as sensações, caímos sem querer no estigma da imagem séria, do olho sério, da paisagem séria. E por mais romântico que sejamos, poéticos ou doces, este conteúdo atraente se perde na rabiola de nossa sincera sinceridade, em nossos modos simples e que não demandam escrita alguma.
Na vida real, fora das profundas cachoeiras que escrevo, existem outras máscaras nem tão sérias como as que aqui uso. Entenderam?
Sou o Marquinhos, e nem sempre esta devoção fascinante, ultra mega profunda dos meus poemas. Me sinto aliviado: sou ridículo. Ridículo até a última gota por acreditar que era tão pesado.
Sou tão bobo e tão ridículo que me sinto bem.
Graças a Deus somos todos humanos e não poesias: do contrário seríamos um saco, acredite.
Entre a cegueira e o cristalino
— Tudo isto um dia será seu, meu filho.
O menino, pequeno em frente ao mundo, chocou seu corpo contra a realeza da paisagem.
— Tudo?
— Tudo. As árvores, as rosas e as tumbas.
— Também os jazigos?
— E as lápides. Meu filho — continuou —: esta é a cortina da cidade. Pra lá dos corpos estão os negócios, ansiedades, manias, os postos de gasolina e o que mais o homem procria para manter a irônica maravilha do progresso. Vê os prédios cinzentos?
— Sim.
— Pois bem; lá se esconde o mito do homem cotidiano. Pensa ele ter matado os deuses gregos, mas ainda consome seus folclores. O que guarda para si, hoje, não é nada menos que o mito da onipotência apolínea. Daí se enfurna desta literatura doce, e vive uma estátua cheia das perfeitas medidas. Mas logo, logo, será velho após os vinte e cinco anos. E então, descartado do mundo, buscará as raízes de outros tempos, quando era novo, forte e invencível.
Mas, você, meu filho, terá o reino dos reinos. Guardará os portões mais humanos que nenhum artista, professor, químico ou político pode aguentar.
— Como?
— A morte será o mais eterno presente que alguém pode lhe dar. Embalada na surpresa incógnita, ela baterá em sua porta. E se seguir meus conselhos, consumir os mitos saudáveis, todo o cemitério será seu.
— O que fará de mim proprietário?
— O sossego de um jogo de xadrez. Enquanto os persas guerreiam, as mulheres gritam, os filhos choram, continuará você sereno, a movimentar as peças do jogo. Quando chegar tua hora, não será afronta, mas merecimento. A vida, um sossego, será entregue sem medo à foice do tempo. E quando perceber ser parte do cemitério, conteúdo integrante ao imenso Nada, se sentirá bem, tranquilo, satisfeito, exatamente como alguém que cuida e divide uma imensa casa.
— Mas e quanto aos outros? Não morrerão também?
— Não. Apenas dormirão, acreditando ser sonho passageiro. Nunca morrerão se não tiverem vivido.
— E como se vive?
— O que os ventos dizem?
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Anos depois, o menino crescido se pergunta: o que os ventos dizem?
Absolutamente um mistério. Pra onde vão é mistério. Onde acabam é um mistério. O que realmente importa é onde batem em ti: no peito? Na cabeça? Nos pés?
Mas e se eles se cruzam? E se o medo resiste?
Calma! Arruma o quarto. Escova os dentes. Dorme. Sonha.
Então verá que, numa repentina linha, encontrará a roupa que quer usar. A pequena estrela pode ser o sol. A gota é começo do temporal.
Os ventos não dizem nada, absolutamente nada. Não busque entendê-los. A natureza deles é ir adiante, infernal, rápido ou vagaroso.
O melhor a fazer é senti-los. E onde baterem, siga-os, mesmo cego, mesmo perdido, mesmo descrente.
Quando perceber, logo estará conectado ao melhor dos sopros.
Então lembre-se:
— O que quer da vida?
Diga em alto e bom tom, sem medo deste mundo tão sólido:
— O que a vida quiser.
Claro, eles se assustarão, dirão que é necessário se guiar, ser firme e estar firme. Baterão o pé:
— Como?! Está louco?
Compadre... A vida não é este impulso sôfrego feito pela consciência, nem manifestação concreta do pensamento.
É tudo um pouco de tudo: o que eu quero da vida, e o que a vida diz pra mim. Onde o vento bate e onde meto minhas pernas. O que finalmente a música canta e o que finalmente danço no compasso que invento!
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Mas e se não sabemos onde eles batem? O que fazer?
Bom, então consideramos duas opções: ou o mar está calmo, e de fato, não há indicações temporárias do trajeto, ou eles sopram e de alguma forma não o sentimos.
De qualquer forma é a paciência que salva. Paciência e calma.
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Amor em Outra Língua
O bigode de doutor Brownie entendia a língua que falava o botão do sapato de Lilian.
Foi amor a primeira esquisitice.
O bigode-paspalho, abestalhado e tonto olhava de quina a graciosidade esferoide do botão rosa do sapato roxo. Acaso por acaso, infelicidade por infortúnio e clichê por clichê, era mais um desses amores impossíveis. Como poderiam dois seres distintos, diferentes assim, viverem uma paixão dessas? Um bigode fofo, de tom preto botina poderia mandar poesias para um botão rosa, meio torto e sonolento, de um sapato roxo? Deus, que agonia!
Eis que o motorista dá uma brequada, e doutor Brownie — por descuido — solta-se do apoio do ônibus, e vai direto ao chão, esbarrando o rosto em um sapato roxo, que curiosamente tinha um botão rosa, torto e sonolento. O impacto foi forte, e o bigode estalou um beijo surpresa na recém descoberta paixão.
Doutor Brownie, meio desconcertado, levanta-se e pede desculpas à moça Lilian.
Ele desce no ponto morrendo de vergonha e prometendo a si mesmo nunca dar outro vexame destes.
Mas em algum lugar do corpo sentia-se realizado, feliz que nem criança quando ganha bala. Em algum lugar do corpo podia sentir cheiro de beijo e gosto de macaxeira. Seu bigode dormiu feliz.
Coesão
Certas coisas cortam o coração. Como então, calar a cabeça e consertar o quebrado, caído? Cacos e cacos moídos.
Copos e copas no chão quebradiço. Culpa e choro, coro da cisão:
Cabou, caiu, quebrou,
Cabe então, um colírio pra córnea.
Pra cor, color e dolor, semente e somente criação, caju!