Apontou para o cenário musical:
— Tudo isto um dia será seu, meu filho.
O menino, pequeno em frente ao mundo, chocou seu corpo contra a realeza da paisagem.
— Tudo?
— Tudo. As árvores, as rosas e as tumbas.
— Também os jazigos?
— E as lápides. Meu filho — continuou —: esta é a cortina da cidade. Pra lá dos corpos estão os negócios, ansiedades, manias, os postos de gasolina e o que mais o homem procria para manter a irônica maravilha do progresso. Vê os prédios cinzentos?
— Sim.
— Pois bem; lá se esconde o mito do homem cotidiano. Pensa ele ter matado os deuses gregos, mas ainda consome seus folclores. O que guarda para si, hoje, não é nada menos que o mito da onipotência apolínea. Daí se enfurna desta literatura doce, e vive uma estátua cheia das perfeitas medidas. Mas logo, logo, será velho após os vinte e cinco anos. E então, descartado do mundo, buscará as raízes de outros tempos, quando era novo, forte e invencível.
Mas, você, meu filho, terá o reino dos reinos. Guardará os portões mais humanos que nenhum artista, professor, químico ou político pode aguentar.
— Como?
— A morte será o mais eterno presente que alguém pode lhe dar. Embalada na surpresa incógnita, ela baterá em sua porta. E se seguir meus conselhos, consumir os mitos saudáveis, todo o cemitério será seu.
— O que fará de mim proprietário?
— O sossego de um jogo de xadrez. Enquanto os persas guerreiam, as mulheres gritam, os filhos choram, continuará você sereno, a movimentar as peças do jogo. Quando chegar tua hora, não será afronta, mas merecimento. A vida, um sossego, será entregue sem medo à foice do tempo. E quando perceber ser parte do cemitério, conteúdo integrante ao imenso Nada, se sentirá bem, tranquilo, satisfeito, exatamente como alguém que cuida e divide uma imensa casa.
— Mas e quanto aos outros? Não morrerão também?
— Não. Apenas dormirão, acreditando ser sonho passageiro. Nunca morrerão se não tiverem vivido.
— E como se vive?
— O que os ventos dizem?
***********
Anos depois, o menino crescido se pergunta: o que os ventos dizem?
Absolutamente um mistério. Pra onde vão é mistério. Onde acabam é um mistério. O que realmente importa é onde batem em ti: no peito? Na cabeça? Nos pés?
Mas e se eles se cruzam? E se o medo resiste?
Calma! Arruma o quarto. Escova os dentes. Dorme. Sonha.
Então verá que, numa repentina linha, encontrará a roupa que quer usar. A pequena estrela pode ser o sol. A gota é começo do temporal.
Os ventos não dizem nada, absolutamente nada. Não busque entendê-los. A natureza deles é ir adiante, infernal, rápido ou vagaroso.
O melhor a fazer é senti-los. E onde baterem, siga-os, mesmo cego, mesmo perdido, mesmo descrente.
Quando perceber, logo estará conectado ao melhor dos sopros.
Então lembre-se:
— O que quer da vida?
Diga em alto e bom tom, sem medo deste mundo tão sólido:
— O que a vida quiser.
Claro, eles se assustarão, dirão que é necessário se guiar, ser firme e estar firme. Baterão o pé:
— Como?! Está louco?
Compadre... A vida não é este impulso sôfrego feito pela consciência, nem manifestação concreta do pensamento.
É tudo um pouco de tudo: o que eu quero da vida, e o que a vida diz pra mim. Onde o vento bate e onde meto minhas pernas. O que finalmente a música canta e o que finalmente danço no compasso que invento!
***************
Mas e se não sabemos onde eles batem? O que fazer?
Bom, então consideramos duas opções: ou o mar está calmo, e de fato, não há indicações temporárias do trajeto, ou eles sopram e de alguma forma não o sentimos.
De qualquer forma é a paciência que salva. Paciência e calma.
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Bêbado e Neurótico
Eu, cá, e a vida, lá. Estou oferecendo as máximas resistências que meu corpo aguenta, num luto ardente, violento e jovial.
Minha cabeça é um receptáculo de alicerces, onde construo, mentalmente, toda as barreiras de cimento. Sou concretista, duro e material: tenho 10 toneladas de pensamentos, todos eles espinhentos, ásperos e conclusivos.
São conclusivos em termos axiomáticos quando medidos em toda sua extensão.
Sou inflexível? Muito pelo contrário: a argamassa é fresca, pronta para construir estátuas, rodovias e muros.
O axioma consta no universo da construção: os andaimes sobem e descem, os pedreiros trabalham arduamente, o cal consome os ares deste universo.
E fora dele, não há salvação.
Às vezes, me parece lama, ou areia movediça. Estou preso, e de forma ilógica, me defendo de outras alternativas. Até quando resistir? Até quando cuspir na vida, e torná-la um movimento de meus pensamentos?
Eu me movo no compasso da formulação racional, sempre em processo de inconstâncias. Torno a velocidade do universo uma propagação de um impulso da consciência.
Mas fora de mim, a madeira do meu quarto respira calmamente. A cama dorme, tranquila. E mesmo o barulho dos vizinhos são pacíficos.
Estou armado, lutando contra a mastigação da vida, a pulverização de meu ser. Não quero deixar a pavimentação, o piche e meus muros de concreto.
—————-
Meus sonhos são todos extravagantes. O sono é o picadeiro, e meus complexos, artistas inesperados.
Danço, pulo, rio, choro, ando de perna de pau, sou uma mulher barbada, um trapezista forte, um palhaço ridículo. A lona de minha cama, junto do brilho das estrelas, compõem o espetáculo.
Sou romântico por excesso, surrealista em excesso e dadaísta em excesso. Tudo são excessos: meus vícios, meus impulsos suicídias, meus desejos de vida, minha solidão e meu amor.
A Lua canta por mim. Já de dia, o Sol esquenta a construção, como se eu fosse o demônio a labutar.
Tudo é tanto, tudo é bastante, tudo é grande, e todo grande é apogeu.
Eu quero fugir da pedreira e do asfalto. Quero poder rir os símbolos que meu inconsciente vomita.
Mas existe uma mão invisível, um peso que não permite o devenir. Uma mão que parece um carimbo, ou uma arma.
—————————————-
Tudo funciona quando rezo. Tudo acontece quando sinto. Tudo funciona quando me equilibro.
Apenas me mantenho na corda bamba quando ao lado de Deus, dos arquétipos, dos símbolos, dos números, dos signos e da natureza.
Necessito aceitá-los. Necessito vivê-los.
Do contrário, sou um artista bêbado, decadente e velho, com as vísceras comidas pela melancolia dos filósofos; ou então, um militante utópico, crítico e altruísta — a ponto de anular o próprio ser em prol de uma causa.
All you need is less.
Minha cabeça é um receptáculo de alicerces, onde construo, mentalmente, toda as barreiras de cimento. Sou concretista, duro e material: tenho 10 toneladas de pensamentos, todos eles espinhentos, ásperos e conclusivos.
São conclusivos em termos axiomáticos quando medidos em toda sua extensão.
Sou inflexível? Muito pelo contrário: a argamassa é fresca, pronta para construir estátuas, rodovias e muros.
O axioma consta no universo da construção: os andaimes sobem e descem, os pedreiros trabalham arduamente, o cal consome os ares deste universo.
E fora dele, não há salvação.
Às vezes, me parece lama, ou areia movediça. Estou preso, e de forma ilógica, me defendo de outras alternativas. Até quando resistir? Até quando cuspir na vida, e torná-la um movimento de meus pensamentos?
Eu me movo no compasso da formulação racional, sempre em processo de inconstâncias. Torno a velocidade do universo uma propagação de um impulso da consciência.
Mas fora de mim, a madeira do meu quarto respira calmamente. A cama dorme, tranquila. E mesmo o barulho dos vizinhos são pacíficos.
Estou armado, lutando contra a mastigação da vida, a pulverização de meu ser. Não quero deixar a pavimentação, o piche e meus muros de concreto.
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Meus sonhos são todos extravagantes. O sono é o picadeiro, e meus complexos, artistas inesperados.
Danço, pulo, rio, choro, ando de perna de pau, sou uma mulher barbada, um trapezista forte, um palhaço ridículo. A lona de minha cama, junto do brilho das estrelas, compõem o espetáculo.
Sou romântico por excesso, surrealista em excesso e dadaísta em excesso. Tudo são excessos: meus vícios, meus impulsos suicídias, meus desejos de vida, minha solidão e meu amor.
A Lua canta por mim. Já de dia, o Sol esquenta a construção, como se eu fosse o demônio a labutar.
Tudo é tanto, tudo é bastante, tudo é grande, e todo grande é apogeu.
Eu quero fugir da pedreira e do asfalto. Quero poder rir os símbolos que meu inconsciente vomita.
Mas existe uma mão invisível, um peso que não permite o devenir. Uma mão que parece um carimbo, ou uma arma.
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Tudo funciona quando rezo. Tudo acontece quando sinto. Tudo funciona quando me equilibro.
Apenas me mantenho na corda bamba quando ao lado de Deus, dos arquétipos, dos símbolos, dos números, dos signos e da natureza.
Necessito aceitá-los. Necessito vivê-los.
Do contrário, sou um artista bêbado, decadente e velho, com as vísceras comidas pela melancolia dos filósofos; ou então, um militante utópico, crítico e altruísta — a ponto de anular o próprio ser em prol de uma causa.
All you need is less.
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