Flutuava a noite invertida, refletida no lago.
A lua se desdobrava, como um lençol amassado. Todo o espelho estelar se movia lentamente, acompanhado de uma brisa noturna.
Pegou uma pedra e a arremessou em direção à constelação. Primeiramente subiu, e percebendo o inútil esforço, resolveu descer, tocando o céu de mentirinha: todo o lago que refletia a astrofísica.
O pequeno alvoroço assustou Narciso, que se concentrava em encontrar todo seu mistério. Amava o todo. Amava suas partes. O choque que a pedra provocou arruinou todo seu belo e estático mistério.
Olhou para trás e notou um encapuzado.
— Quem é você? — perguntou.
— Aquele que o afastará de séculos de mitos, expressões e patologias.
Toda frase que rompe a motora realidade nos causa espanto. A escutamos bem, mas mesmo assim precisamos confirmar:
— Como?
— Exatamente. Irei te livrar, e mais ainda, humanizar.
— Me salvar do que, exatamente?
— Escute bem: seu nome é Narciso. Toda uma infinidade de literaturas, poesias, e síndromes nascerão de sua história. Em minutos você irá encarar seu reflexo, se espantar com toda beleza e terminará com o desejo de beijar a própria imagem. Morrerá afogado. E assim, serão séculos e mais séculos de citações. Entendeu?
Narciso franziu a testa. E como o encapuzado teria tanta certeza?
— E como tem tanta certeza? Como a convicção trespassa séculos futuros?
— Narciso, olhe para mim.
E tirou o capuz.
Ficou perplexo. O estranho, agora desmascarado, era ninguém menos que ele mesmo.
— Como isso é possível? Quem é você? Ou como pod…
— Sim, Narciso. Somos os mesmos. Somos o mesmo. Eu sou você. Você sou eu. A mesma pessoa, o mesmo corpo.
— Mas como eu habitaria um outro corpo senão o meu?
— A questão não é essa. A questão é que irá se matar. Mas eu posso te salvar.
— Isto é impossível. Minha morte resultaria num duplo suicídio! Você não pode me salvar. Se a decisão é minha, também é sua. Me salvar mostra que não somos o mesmo.
O Narciso-antes-encapuzado olhou para o lago. Respondeu:
— Quantos Narcisos existem?
— Três. O reflexo, eu e você.
— Não. Resposta errada.
— Como?
— Não existe Narciso nenhum. O reflexo é o que você imagina e ingenuamente chama de Narciso. Uma figura inventada, onírica. Você é outra pessoa. Eu sou sua consciência.
— Mas então como somos o mesmo? E quanta à idêntica aparência?
— Justamente. Estou aqui para te livrar do conflito. Olhe novamente para o lago.
E assim ele fez.
Gritou de espanto. O espelho agora mostrava outra pessoa. A mesma anteriormente, mas diferente em essência. O mesmo cabelo, olhos e boca. Mas só era ele mesmo, não um ideal separada de sua existência.
Levantou a cabeça e se surpreendeu com o vazio: sua consciência havia desaparecido.
Deitou-se, extremamente perdido. O que foi tudo isso? O que foi tudo isso!? Onde ele está?
Ficou minutos a se perguntar, atordoado com o acontecimento. Olhou para a lua, no teto estelar. Olhou para seu reflexo esferóide, amarelo.
Compreendeu que a pergunta correta é: “quem, afinal, sou eu?”.
Fitou sua própria imagem. Se tocou. Se beliscou, se mordeu, se apalpou, se masturbou.
E lentamente ia compreendendo: a consciência não havia desaparecido. Apenas voltou para seu lugar, que é dentro dele.
A imagem do espelho não mudou. Continuou a mesma.
O que finalmente havia mudado era ele: tornou-se uno, único, todo.
Um uno Narciso, um único Narciso, um todo Narciso.
E aprendeu, finalmente, a se amar.
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sábado, 14 de fevereiro de 2015
Desfragmentado
Bêbado e Neurótico
Eu, cá, e a vida, lá. Estou oferecendo as máximas resistências que meu corpo aguenta, num luto ardente, violento e jovial.
Minha cabeça é um receptáculo de alicerces, onde construo, mentalmente, toda as barreiras de cimento. Sou concretista, duro e material: tenho 10 toneladas de pensamentos, todos eles espinhentos, ásperos e conclusivos.
São conclusivos em termos axiomáticos quando medidos em toda sua extensão.
Sou inflexível? Muito pelo contrário: a argamassa é fresca, pronta para construir estátuas, rodovias e muros.
O axioma consta no universo da construção: os andaimes sobem e descem, os pedreiros trabalham arduamente, o cal consome os ares deste universo.
E fora dele, não há salvação.
Às vezes, me parece lama, ou areia movediça. Estou preso, e de forma ilógica, me defendo de outras alternativas. Até quando resistir? Até quando cuspir na vida, e torná-la um movimento de meus pensamentos?
Eu me movo no compasso da formulação racional, sempre em processo de inconstâncias. Torno a velocidade do universo uma propagação de um impulso da consciência.
Mas fora de mim, a madeira do meu quarto respira calmamente. A cama dorme, tranquila. E mesmo o barulho dos vizinhos são pacíficos.
Estou armado, lutando contra a mastigação da vida, a pulverização de meu ser. Não quero deixar a pavimentação, o piche e meus muros de concreto.
—————-
Meus sonhos são todos extravagantes. O sono é o picadeiro, e meus complexos, artistas inesperados.
Danço, pulo, rio, choro, ando de perna de pau, sou uma mulher barbada, um trapezista forte, um palhaço ridículo. A lona de minha cama, junto do brilho das estrelas, compõem o espetáculo.
Sou romântico por excesso, surrealista em excesso e dadaísta em excesso. Tudo são excessos: meus vícios, meus impulsos suicídias, meus desejos de vida, minha solidão e meu amor.
A Lua canta por mim. Já de dia, o Sol esquenta a construção, como se eu fosse o demônio a labutar.
Tudo é tanto, tudo é bastante, tudo é grande, e todo grande é apogeu.
Eu quero fugir da pedreira e do asfalto. Quero poder rir os símbolos que meu inconsciente vomita.
Mas existe uma mão invisível, um peso que não permite o devenir. Uma mão que parece um carimbo, ou uma arma.
—————————————-
Tudo funciona quando rezo. Tudo acontece quando sinto. Tudo funciona quando me equilibro.
Apenas me mantenho na corda bamba quando ao lado de Deus, dos arquétipos, dos símbolos, dos números, dos signos e da natureza.
Necessito aceitá-los. Necessito vivê-los.
Do contrário, sou um artista bêbado, decadente e velho, com as vísceras comidas pela melancolia dos filósofos; ou então, um militante utópico, crítico e altruísta — a ponto de anular o próprio ser em prol de uma causa.
All you need is less.
Minha cabeça é um receptáculo de alicerces, onde construo, mentalmente, toda as barreiras de cimento. Sou concretista, duro e material: tenho 10 toneladas de pensamentos, todos eles espinhentos, ásperos e conclusivos.
São conclusivos em termos axiomáticos quando medidos em toda sua extensão.
Sou inflexível? Muito pelo contrário: a argamassa é fresca, pronta para construir estátuas, rodovias e muros.
O axioma consta no universo da construção: os andaimes sobem e descem, os pedreiros trabalham arduamente, o cal consome os ares deste universo.
E fora dele, não há salvação.
Às vezes, me parece lama, ou areia movediça. Estou preso, e de forma ilógica, me defendo de outras alternativas. Até quando resistir? Até quando cuspir na vida, e torná-la um movimento de meus pensamentos?
Eu me movo no compasso da formulação racional, sempre em processo de inconstâncias. Torno a velocidade do universo uma propagação de um impulso da consciência.
Mas fora de mim, a madeira do meu quarto respira calmamente. A cama dorme, tranquila. E mesmo o barulho dos vizinhos são pacíficos.
Estou armado, lutando contra a mastigação da vida, a pulverização de meu ser. Não quero deixar a pavimentação, o piche e meus muros de concreto.
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Meus sonhos são todos extravagantes. O sono é o picadeiro, e meus complexos, artistas inesperados.
Danço, pulo, rio, choro, ando de perna de pau, sou uma mulher barbada, um trapezista forte, um palhaço ridículo. A lona de minha cama, junto do brilho das estrelas, compõem o espetáculo.
Sou romântico por excesso, surrealista em excesso e dadaísta em excesso. Tudo são excessos: meus vícios, meus impulsos suicídias, meus desejos de vida, minha solidão e meu amor.
A Lua canta por mim. Já de dia, o Sol esquenta a construção, como se eu fosse o demônio a labutar.
Tudo é tanto, tudo é bastante, tudo é grande, e todo grande é apogeu.
Eu quero fugir da pedreira e do asfalto. Quero poder rir os símbolos que meu inconsciente vomita.
Mas existe uma mão invisível, um peso que não permite o devenir. Uma mão que parece um carimbo, ou uma arma.
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Tudo funciona quando rezo. Tudo acontece quando sinto. Tudo funciona quando me equilibro.
Apenas me mantenho na corda bamba quando ao lado de Deus, dos arquétipos, dos símbolos, dos números, dos signos e da natureza.
Necessito aceitá-los. Necessito vivê-los.
Do contrário, sou um artista bêbado, decadente e velho, com as vísceras comidas pela melancolia dos filósofos; ou então, um militante utópico, crítico e altruísta — a ponto de anular o próprio ser em prol de uma causa.
All you need is less.
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