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sábado, 14 de fevereiro de 2015

O Herói da Família

Desceu do carro, abandonou a mãe. Disse “tchau” com o peso de adeus. Seria um homem aquele dia.
Um homem como o pai. Um homem enorme, carregando a mochila do Pluto de forma impetuosa.
Desceu as escadas, subiu mais outros 19 degraus.
(Por conta de sua ansiedade, contava a quantidade todos os dias).
Entrou na sala. Sentou-se ao lado de Antônio, seu amigo que desenhava dragões de uma forma que ele se espantava. Eram incrivelmente verossímeis, embora nem soubesse o que isto significasse.
Encolheu-se na carteira e esperou. Esperou o borrão que era a matemática representada no quadro negro. Esperou geografia, a decorar as capitais do Brasil. Depois a história, e em seguida, religião. Foi dado o primeiro sinal.
Pronto, tudo pronto. Seu estômago se encolhia de tanto nervosismo.
Mas nada foi consumado.
Apenas a observou como se fosse paisagem — embora nem soubesse o que era isso.
No dia anterior, sua mãe perguntara se gostava de alguém. Em resposta, negou até a morte. Não gostava de nenhuma menina chamada Renata. Aliás, odiava.
Infelizmente, ele sabia que não a odiava. E sabia muito bem que todas as crianças diziam isso quando perguntadas sobre algum amor.
Ele, de verdade, queria apenas dizer que ela fazia seu estômago se encolher.
E naquela noite, após o questionário intruso de sua mãe, ligou a televisão. Viu um homem e uma mulher se beijando. Se perguntou: por que os adultos fazem isso? Qual seria a sensação?
Deitou pensativo, como Cebolinha a bolar um plano inafalível.
Então o recreio terminara, e ele voltou pra classe. Sentou-se novamente, encolhido em seu canto, introspectivo.
Ela entrou logo após.
Aliás, ele sempre corria para a classe quando o recreio acabava. Temia que a menina chegasse primeiro, e temia mais ainda imaginar ser observado por ela.
Não.
Enquanto tivesse a agilidade de Flash, poderia se esconder dela, e melhor ainda, olhar escondido para seu cabelo.
E então esperou ainda mais, olhando sempre pro relógio.
Na verdade, não sabia ler os horários, e se perguntava se mais alguém no planeta — além de seus pais — poderiam entender aquela linguagem estranha.
Mentira.
Ele não se perguntava de nada. Só olhava pro relógio porque todo mundo fazia isso.
O toque do sino! Era a hora!
Esperou que ela fosse primeiro, na frente. Não gostava da idéia de ser vigiado.
A menina sentou-se no banco, onde todos ficavam a aguardar os pais. Ele sentou-se ao lado dela.
Disseram: “oi”.
Seu estômago se encolhia inteiro. Ficou olhando uma árvore sem conseguir se mover.
Tomou coragem e virou seu rosto em direção ao dela: estalou um beijo surpresa enorme!
Ela ficou atônita, com os olhos azuis abertos.
A buzina encobriu o momento, e a menina se retirou do banco em direção ao carro.

———

Vinte e cinco anos depois, já adulto, ele foi acusado de estupro e violência doméstica.
E ela, morreu das mesma causas.

———

Melhor tomar cuidado com o que achamos simplesmente fofinho.

Três Pratos de Trigo para Três Tigres Tristes

Fui acordado pela estrondosa chuva, que esmaga as ideias flutuantes, os sonhos aéreos e as aspirações cotidianas.
Fomos todos nós de casa, Caqui, Rubia e Tulipa, alagados por dentro e por fora. A chuva apaziguou nossas brigas, mas também fez o ar pesar, junto de nossas palavras, que caíram e se perderam no solo úmido. 
Andamos todos cabisbaixos agora, procurando-as a todo custo, para que se possa pelo menos reuni-las, e formular frases, por menores que sejam. A tentativa é em vão, e o que nos resta são apenas os olhos, murmurando baixinho qualquer coisa que não incomode a chuva.
Eu, Caqui, fui o primeiro a sucumbir. Rubia, ainda levou um curto período de tempo para se dar conta de que o silêncio mais vale a pena. Já Tulipa, lutou bravamente pelo som das palavras.
Era até engraçado vê-la tentando conversar. Ficava toda vermelha e inchada, quase explodia. A cabeça tilintava, tocando Dó Ré Mi Fa, sem parar. Às vezes tínhamos que apertar seu peito para que não morresse sufocada, e era expelido, de dentro de sua boca, um La bem cumprido.
Enfim, desistiu, e tornamo-nos taciturnos, herméticos, quase que rústicos. 
Chegamos até a grunhir, de tão pouco que havia pra se falar. Parecíamos feras, atacando com o olhos. Andávamos prontos para qualquer ocasião em que o outro abaixasse aguarda, como babuínos selvagens. Rubi fazia trincheiras para se defender de possíveis invasores. Meus pelos e cabelos cresceram de maneira ostensiva. Tulipa desenvolveu os caninos.
Apenas por um momento perdemos esta barbaridade, quando um ribombante trovão explodiu a árvore da esquina. Esta árvore, tão magrela e alta, simplesmente foi desfrangalhada ao meio.
Nós três, que estávamos devorando a própria carne em cantos dispersos da casa, corremos para a sala e nos entreolhamos acuados, buscando a partilha do consolo, como cachorros molhados, tementes do mundo.
Lembro dos olhos de Rubi, espremidos de medo, mais do que o meu e o de Tulipa. Eram azuis, de camaleão, quase cristalinos diante do pavor. A transparência fazia com que mais parecessem um buraco no rosto. Medonho, sim, mas gerava compaixão quando contrastava com o rosto redondo e angelical dela.
Por fim, os trovões foram se afastando, e nós retornamos à habitual solidão, centrados nos azurros, rugidos, relinchares e no barulho da chuva, que mais silêncio parecia, de tão acostumados que estávamos.
Um dia, contrariando as leis da selva, Tulipa me acordou. Fomos para a sala, de quatro, como cachorros, ambos de pijama. Sentamos um de frente ao outro, e eu, escutei sua dor. Ou melhor, a enxerguei, já que perdemos todo vocabulário falado. Em compensação, transbordávamos de expressão contida. 
Seu olho direito procurava fugir do assunto, mas o esquerdo permanecia inflexível, com uma coragem e virtude espartana para dizer o indizível. 
Enfim, mostrou-me o que era: estopim.
Não aguentava mais o barulho da chuva, o silêncio e a bestialidade entre nós três, a irregularidade dispersa na ausência de horários e aquela maldita árvore caída, que, merda, ninguém faz nada pra removê-la, ninguém se mexe, ninguém fala, ninguém respira, parece tudo morto.
Não foi difícil compreender sua dor. Não mesmo. A sístole e a diástole entre nós era equânime, marcada por um compasso unido, crescente, quase marchando.
Chorei junto dela, e nossas lágrimas secaram as lágrimas do céu, como se curássemos a dor atmosférica. No escuro, soluçávamos baixinho, compartilhando a dor daquele universo só nosso. 
Rubia parece ter ouvido nossa pequena chuva, pois prostrou ao nosso lado. Tulipa abriu o braço e a enlaçou entre nós. Choramos juntos, grudados um no outro, perdoando a ausência de todos. De tanta frieza acumulada, só a lágrima pode esquentar a gélida e metálica atmosfera vivida.
Nos entreolhamos, e pela primeira vez em semanas desta chuva repressora, pude eu, sussurrar algo:
— Onde estão os dragões?
E de repente algum ser fotografou nossa casa, a árvore caída, a rua alagada e a cidade mofada, iluminando o momento através de um grande flash. 
Em seguida, até nossa respiração parece ter voltado, como se estivesse presa em um vasto oceano. Puxamos o ar com tanta força que a luz da sala acendeu. A luz do poste também. O relógio reviveu seu tiquetaquear. Nossas pupilas dilataram-se. O sol reacendeu sua chama, conduzida por Hélio. Vimos, todos nós juntos, um calor abrasar nossos corpos, e de tão intenso que era, nos desnudamos rapidamente, dividindo o suor e os hormônios.
— Puta que pariu! — Rubia gritava.
Mal tocamos o chão e ele quase desmanchava, parecendo um grande chocolate.
Corremos em direção ao banheiro, para refrear o inferno que de repente o mundo virou. Ligamos o chuveiro, e em baixo da água fria, nos acalmamos, tateando os braços e rezando a Deus pela sorte de não termos sublimado como bolas de naftalina. 
Enfim, respiramos em baixo d’água, aliviados.