Dificilmente escrevo algo aqui, porque temo expor opiniões, seja lá por
insegurança, seja lá por medo. De qualquer forma, são genuínas as
palavras que saem, força independente em se mostrar ao mundo. O meu
desejo é simples e reto: silêncio, muito silêncio. Minha mãe vive
cantando "tempo de silêncio e solidão", síntese do desenrolar de vários
fatos.
E o fato principal é que não encontro saída para qualquer
parte, onde a opinião me custa não só palavras, mas um lançar-me a uma esfera
de pensamento que por fim, é apenas mais uma dentro de setores, gamas e
diferenciações próprias da subjetividade de nossos valores. Então, olho
esta infinidade e renuncio, desistente de empunhar certezas. Tudo é por
demais complexo, e alimento a esperança de encontrar razões neste tudo:
em quem morre, em quem mata. É cruel, de fato. Ser compreensivo a todo
momento, pra tudo o que existe, cansa.
Mas o que fazer? Ignorar o
campo da subjetividade e dizer logo o que pensa sem rodeios? Pode ser,
mas não é esta abordagem que quis inicialmente dar ao texto. Quis mesmo
expressar o desejo de silêncio, ultra silêncio, apenas cerrar os olhos e
parar de pensar, pra que o mundo se faça pequeno, e eu deixe a
abrangência. Quando as coisas se tornam demais, é porque estamos cegos
para os detalhes, como o nome do vizinho, a comida que faz mal e a
necessidade de dormir bem.
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Três Pratos de Trigo para Três Tigres Tristes
Fui acordado pela estrondosa chuva, que esmaga as ideias flutuantes, os sonhos aéreos e as aspirações cotidianas.
Fomos todos nós de casa, Caqui, Rubia e Tulipa, alagados por dentro e por fora. A chuva apaziguou nossas brigas, mas também fez o ar pesar, junto de nossas palavras, que caíram e se perderam no solo úmido.
Andamos todos cabisbaixos agora, procurando-as a todo custo, para que se possa pelo menos reuni-las, e formular frases, por menores que sejam. A tentativa é em vão, e o que nos resta são apenas os olhos, murmurando baixinho qualquer coisa que não incomode a chuva.
Eu, Caqui, fui o primeiro a sucumbir. Rubia, ainda levou um curto período de tempo para se dar conta de que o silêncio mais vale a pena. Já Tulipa, lutou bravamente pelo som das palavras.
Era até engraçado vê-la tentando conversar. Ficava toda vermelha e inchada, quase explodia. A cabeça tilintava, tocando Dó Ré Mi Fa, sem parar. Às vezes tínhamos que apertar seu peito para que não morresse sufocada, e era expelido, de dentro de sua boca, um La bem cumprido.
Enfim, desistiu, e tornamo-nos taciturnos, herméticos, quase que rústicos.
Chegamos até a grunhir, de tão pouco que havia pra se falar. Parecíamos feras, atacando com o olhos. Andávamos prontos para qualquer ocasião em que o outro abaixasse aguarda, como babuínos selvagens. Rubi fazia trincheiras para se defender de possíveis invasores. Meus pelos e cabelos cresceram de maneira ostensiva. Tulipa desenvolveu os caninos.
Apenas por um momento perdemos esta barbaridade, quando um ribombante trovão explodiu a árvore da esquina. Esta árvore, tão magrela e alta, simplesmente foi desfrangalhada ao meio.
Nós três, que estávamos devorando a própria carne em cantos dispersos da casa, corremos para a sala e nos entreolhamos acuados, buscando a partilha do consolo, como cachorros molhados, tementes do mundo.
Lembro dos olhos de Rubi, espremidos de medo, mais do que o meu e o de Tulipa. Eram azuis, de camaleão, quase cristalinos diante do pavor. A transparência fazia com que mais parecessem um buraco no rosto. Medonho, sim, mas gerava compaixão quando contrastava com o rosto redondo e angelical dela.
Por fim, os trovões foram se afastando, e nós retornamos à habitual solidão, centrados nos azurros, rugidos, relinchares e no barulho da chuva, que mais silêncio parecia, de tão acostumados que estávamos.
Um dia, contrariando as leis da selva, Tulipa me acordou. Fomos para a sala, de quatro, como cachorros, ambos de pijama. Sentamos um de frente ao outro, e eu, escutei sua dor. Ou melhor, a enxerguei, já que perdemos todo vocabulário falado. Em compensação, transbordávamos de expressão contida.
Seu olho direito procurava fugir do assunto, mas o esquerdo permanecia inflexível, com uma coragem e virtude espartana para dizer o indizível.
Enfim, mostrou-me o que era: estopim.
Não aguentava mais o barulho da chuva, o silêncio e a bestialidade entre nós três, a irregularidade dispersa na ausência de horários e aquela maldita árvore caída, que, merda, ninguém faz nada pra removê-la, ninguém se mexe, ninguém fala, ninguém respira, parece tudo morto.
Não foi difícil compreender sua dor. Não mesmo. A sístole e a diástole entre nós era equânime, marcada por um compasso unido, crescente, quase marchando.
Chorei junto dela, e nossas lágrimas secaram as lágrimas do céu, como se curássemos a dor atmosférica. No escuro, soluçávamos baixinho, compartilhando a dor daquele universo só nosso.
Rubia parece ter ouvido nossa pequena chuva, pois prostrou ao nosso lado. Tulipa abriu o braço e a enlaçou entre nós. Choramos juntos, grudados um no outro, perdoando a ausência de todos. De tanta frieza acumulada, só a lágrima pode esquentar a gélida e metálica atmosfera vivida.
Nos entreolhamos, e pela primeira vez em semanas desta chuva repressora, pude eu, sussurrar algo:
— Onde estão os dragões?
E de repente algum ser fotografou nossa casa, a árvore caída, a rua alagada e a cidade mofada, iluminando o momento através de um grande flash.
Em seguida, até nossa respiração parece ter voltado, como se estivesse presa em um vasto oceano. Puxamos o ar com tanta força que a luz da sala acendeu. A luz do poste também. O relógio reviveu seu tiquetaquear. Nossas pupilas dilataram-se. O sol reacendeu sua chama, conduzida por Hélio. Vimos, todos nós juntos, um calor abrasar nossos corpos, e de tão intenso que era, nos desnudamos rapidamente, dividindo o suor e os hormônios.
— Puta que pariu! — Rubia gritava.
Mal tocamos o chão e ele quase desmanchava, parecendo um grande chocolate.
Corremos em direção ao banheiro, para refrear o inferno que de repente o mundo virou. Ligamos o chuveiro, e em baixo da água fria, nos acalmamos, tateando os braços e rezando a Deus pela sorte de não termos sublimado como bolas de naftalina.
Enfim, respiramos em baixo d’água, aliviados.
Fomos todos nós de casa, Caqui, Rubia e Tulipa, alagados por dentro e por fora. A chuva apaziguou nossas brigas, mas também fez o ar pesar, junto de nossas palavras, que caíram e se perderam no solo úmido.
Andamos todos cabisbaixos agora, procurando-as a todo custo, para que se possa pelo menos reuni-las, e formular frases, por menores que sejam. A tentativa é em vão, e o que nos resta são apenas os olhos, murmurando baixinho qualquer coisa que não incomode a chuva.
Eu, Caqui, fui o primeiro a sucumbir. Rubia, ainda levou um curto período de tempo para se dar conta de que o silêncio mais vale a pena. Já Tulipa, lutou bravamente pelo som das palavras.
Era até engraçado vê-la tentando conversar. Ficava toda vermelha e inchada, quase explodia. A cabeça tilintava, tocando Dó Ré Mi Fa, sem parar. Às vezes tínhamos que apertar seu peito para que não morresse sufocada, e era expelido, de dentro de sua boca, um La bem cumprido.
Enfim, desistiu, e tornamo-nos taciturnos, herméticos, quase que rústicos.
Chegamos até a grunhir, de tão pouco que havia pra se falar. Parecíamos feras, atacando com o olhos. Andávamos prontos para qualquer ocasião em que o outro abaixasse aguarda, como babuínos selvagens. Rubi fazia trincheiras para se defender de possíveis invasores. Meus pelos e cabelos cresceram de maneira ostensiva. Tulipa desenvolveu os caninos.
Apenas por um momento perdemos esta barbaridade, quando um ribombante trovão explodiu a árvore da esquina. Esta árvore, tão magrela e alta, simplesmente foi desfrangalhada ao meio.
Nós três, que estávamos devorando a própria carne em cantos dispersos da casa, corremos para a sala e nos entreolhamos acuados, buscando a partilha do consolo, como cachorros molhados, tementes do mundo.
Lembro dos olhos de Rubi, espremidos de medo, mais do que o meu e o de Tulipa. Eram azuis, de camaleão, quase cristalinos diante do pavor. A transparência fazia com que mais parecessem um buraco no rosto. Medonho, sim, mas gerava compaixão quando contrastava com o rosto redondo e angelical dela.
Por fim, os trovões foram se afastando, e nós retornamos à habitual solidão, centrados nos azurros, rugidos, relinchares e no barulho da chuva, que mais silêncio parecia, de tão acostumados que estávamos.
Um dia, contrariando as leis da selva, Tulipa me acordou. Fomos para a sala, de quatro, como cachorros, ambos de pijama. Sentamos um de frente ao outro, e eu, escutei sua dor. Ou melhor, a enxerguei, já que perdemos todo vocabulário falado. Em compensação, transbordávamos de expressão contida.
Seu olho direito procurava fugir do assunto, mas o esquerdo permanecia inflexível, com uma coragem e virtude espartana para dizer o indizível.
Enfim, mostrou-me o que era: estopim.
Não aguentava mais o barulho da chuva, o silêncio e a bestialidade entre nós três, a irregularidade dispersa na ausência de horários e aquela maldita árvore caída, que, merda, ninguém faz nada pra removê-la, ninguém se mexe, ninguém fala, ninguém respira, parece tudo morto.
Não foi difícil compreender sua dor. Não mesmo. A sístole e a diástole entre nós era equânime, marcada por um compasso unido, crescente, quase marchando.
Chorei junto dela, e nossas lágrimas secaram as lágrimas do céu, como se curássemos a dor atmosférica. No escuro, soluçávamos baixinho, compartilhando a dor daquele universo só nosso.
Rubia parece ter ouvido nossa pequena chuva, pois prostrou ao nosso lado. Tulipa abriu o braço e a enlaçou entre nós. Choramos juntos, grudados um no outro, perdoando a ausência de todos. De tanta frieza acumulada, só a lágrima pode esquentar a gélida e metálica atmosfera vivida.
Nos entreolhamos, e pela primeira vez em semanas desta chuva repressora, pude eu, sussurrar algo:
— Onde estão os dragões?
E de repente algum ser fotografou nossa casa, a árvore caída, a rua alagada e a cidade mofada, iluminando o momento através de um grande flash.
Em seguida, até nossa respiração parece ter voltado, como se estivesse presa em um vasto oceano. Puxamos o ar com tanta força que a luz da sala acendeu. A luz do poste também. O relógio reviveu seu tiquetaquear. Nossas pupilas dilataram-se. O sol reacendeu sua chama, conduzida por Hélio. Vimos, todos nós juntos, um calor abrasar nossos corpos, e de tão intenso que era, nos desnudamos rapidamente, dividindo o suor e os hormônios.
— Puta que pariu! — Rubia gritava.
Mal tocamos o chão e ele quase desmanchava, parecendo um grande chocolate.
Corremos em direção ao banheiro, para refrear o inferno que de repente o mundo virou. Ligamos o chuveiro, e em baixo da água fria, nos acalmamos, tateando os braços e rezando a Deus pela sorte de não termos sublimado como bolas de naftalina.
Enfim, respiramos em baixo d’água, aliviados.
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