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sábado, 14 de fevereiro de 2015

Escorpião

A dor é comunicação, quando a lemos e interpretamos. A dor nunca somente é processo materialista, relação química ou fisiológica: o que refletimos acerca dela constitui leitura de mundo; mundo este complexo, não convergente em ponto único de entendimento, mas 
agregação de conjunturas que nada delimitam a área do sujeito que sofre.


A leitura da dor permite reavaliações circunstâncias, envolvendo o meio e as influências da matéria exterior, e claro, uma reinterpretação de nossas opiniões e julgamentos.
Quando, através dela, há a quebra do status quo, há também a retirada de uma peça do quebra cabeça, desconstruindo nossa imagem de mundo. A parte ausente convida ao estudo do que somos e vivemos, assim como predileções e gostos.
Quem sabe não somos guiados, em parte, pela dor? Talvez não continuamente, mas como força propulsora. 
A busca por saná-la, ou entendê-la, cria parte do que somos, ao indicar os caminhos que a remediem.
E o que somos, senão o que fazemos dela? Somos Floyd, Freud, poesia, romance, psicodelia, trabalho, Lenine, dinheiro, amigos; a lista é extensa. 
Isto — a recriação — constitui a pavimentação de nossos caminhos, fruto das certezas de que há caminhos para se pavimentar. Só se cimenta quando há a necessidade de se cimentar.
Mas e os que param, questionam, e sofrem a ausência de sentido da própria existência? – em outras palavras, não se satisfazem rapidamente com as respostas para a dor; do contrário, querem A Resposta.
Estes vivem sob a corda bamba, padecendo da incrível Dúvida. São os adultos que teimam, corajosamente, em encontrar, encontrar, encontrar algo.
A vida, para estes, é criação. Arte, filosofia e esoterismo. Necessitam, urgentemente de mais, mais e mais. Entender, e mais do que isso, provar do que entendem: empurrar ao máximo suas barrigas em direção ao teto do universo. 
Nunca, jamais, colarão o corpo às estrelas. 
Mas desta situação conflituosa, consequência da Dúvida, surgem também os benefícios da mesma: são estes indivíduos, ponderados. Assumem o próprio ser, na medida em que questionam as próprias atitudes. São ainda bestas como todos os outros, mas ao menos, têm consciência da própria patifaria.
Mas e quanto à dor? Como eles a resolvem — se resolvem, ao menos.
Como bastar a vontade, que surge em seus seios, de abraçar o sol, num enlaço completo? É o ímpeto da imensa certeza, da ideologia universal. 
Infelizmente, tudo que nasce do homem como Resposta é produto cultural, logo, passível à críticas. Somos rastro de uma história e passado, os quais fazem parte do presente, e são parte também dos pensamentos por nós produzidos.
Parênteses: cultural, sim, mas incrivelmente existencial. Tudo o que o homem produz como resposta para a dor surge de anseios comuns e universais. O inconsciente coletivo abarca situações padrões vividas por todos: dor do término, a Queda, o bem e o mal, a sombra e outros aspectos comuns da existência.
Assim, toda e qualquer resposta para a dor é fruto existencial (origem dos anseios para a resposta) e cultural (forma como se expressa a resposta).
Tudo humano, demasiado humano, sem grandes certezas, sem grandes verdades, sem grandes revelações, sem grandes respostas, sem grandes e profundos e certos mandamentos.
Não há, portanto, corrente filosófica, religião, arte ou mesmo ciência que afague a Dúvida destes seres.
Destarte, pessoas que sofrem da ausência da Resposta: não há uma imensa palavra que vos revele o sentido do viver. Não digo que o mundo é mera especulação acerca da estrada que tomamos, e nem que a busca pela Verdade é vã, quando medida em sua profunda relatividade entre povos, nações, contextos e indivíduos.
O que lido agora deixa de ser a onipotência de uma Certeza, ou a onipresença Dela. Renuncio a luta pela luz universal. Meu emblema, de hoje em diante, é a visão pela qual descubro a dor. 
Portanto, retomo o texto: articulá-la é viver, ao passo que se descobre como se opera e administra a vida. 
Mas pra quê, e por que, se não há sentido?
Infelizmente, caio num axioma, cuja aceitação depende tão somente da fé de quem o lê, e claro, do momento em que o descobre. Minha resposta, caso antes por mim fosse ouvida, em bocas outras, não surtiria efeito. Seria desprezada pelo ódio e pelo Leviatã de meu espírito, descontente com a simplicidade insustentável com a qual configura-se. 
A circunstância da dúvida, em seu ápice, estressante, devoradora, suplicante, requer estrondosas experiências, muito mais além da resposta escrita. Este texto, tem no final das contas, intenção hipomnemática, isto é, de expressão sólida da memória, calcificação das ideias e meses de sofrimento, e não é recurso elucidativo para àqueles que padecem da Eterna Dúvida.
Então, levarei minha mensagem acerca da dor através de uma alegoria, e não do texto técnico. Em seguida, irei expôr o tal axioma. 
Fui tripulante solitário de um navio carregado de perguntas. Singrei por oceanos insânos, ao passo que confundi a turbulência das ondas com a volatilidade de meu espírito inquieto. Tanta tormenta e impulsos suicidas (que não se consumiram por uma leve faísca de esperança) foram experienciados ao extremo do meu corpo, marcado pela fome, desregulação nutricional, descaso visível de minha aparência, olheiras, pele lívida; enfim: meu organismo inteiro foi vítima e sustentáculo do drama do convés sem rumo.
Bem verdade o que acima dito: fui guiado pelos ventos, errantes guias, zombeteiros e extremamente sábios, ao conduzirem o navio de maneira espetacular, por vezes incompreensível, mas agora, em situação atracada, pude notar a sapiência dos sopros.
Por que afinal, tanto divago?
Porque a poesia cria um terreno onde sua compreensão se baseia não na construção linear, mas em imagens onde subitamente o leitor pode encontrar-se.
Basta saber o que houve no caminho para finalmente lhes revelar a resposta acerca da dor, e de como tratei dela.
Pois bem; quase afundando na aquosa salinidade, em meio a um ciclone, fui sucumbido por um pássaro, que trazia em seus olhos a certeza de que minha situação era pouca para declarar-me vencido. O único motivo de afundar era a certeza de que o trajeto não teria fim ou finalidade, e esta certeza foi minada pelo misterioso ser.
O pássaro mostrou suas cicatrizes: vivera o mesmo que eu, em condições semelhantes; mas ao contrário de mim, sobreviveu ao mar boiando por apenas uma tábua de passar roupa. Situação em frangalhos. Detalhou-me sua viagem de volta. Relatara as mesmas angústias minhas, mas contornara a dor.
Como? Não sei.
Ele falava em língua estranha. Meus ouvidos estavam tampados para aquele dialeto. Mas segui em frente, com o rosto alumiado por algum sol do infinito. Tímido, mas real.
Algumas milhas foram navegadas em tom alto, bêbado. Minha pele deixou de ser sensível para aquela dor.
Até que, algum tempo depois, outro pássaro surgiu. 
Pousou em meu ombro, e dialogamos. Mais do que isso, acariciou-me, concedendo graça ao meu rosto cinza e áspero de marujo. Discutimos muito: Jung; niilismo; transcendência; Abraxas, Deus e o Diabo; auto-poiese da Terra; espiritismo; Augusto Comte; Castañeda e finalmente o nada absoluto que é o sentido do Tudo.
Pois bem, as respostas para o mundo eram tantas, que a discussão durou dias, e em cada um, o céu adotou novas faces, alterando seu cromatismo conforme a corrente filosófica. Por fim, terminamos com a máxima das máximas: temos esta vida, e esta morte. E agora?
Agora entra a famosa “Terra à vista!”. Obtive a revelação tão esperada: não há Resposta. Tudo são respostas. Não há Certeza, mas várias certezas. Toda e qualquer posição ideológica é contexto de uma mente agregada, e não, separada da realidade: tanto o ateísmo, quanto o teísmo e agnosticismo são leituras da realidade, uma colocação do indivíduo perante ao teatro das vivências. Não há correta ou incorreta possibilidade: tudo faz parte de um grande quadro sem preponderâncias, onde a razão não escapa do subjetivismo, e nem a emoção da intuição. 
O partido que tomarmos acerca de tudo nunca será indiferença: até esta é leitura do mundo.
Portanto, eu decido escolher o que me faz bem. A Dúvida sempre existirá, mas a felicidade, este bem supremo, completude efusiva, bola luminosa, será minha guia. 
E que axioma eu me referia?
Pra quê ser feliz?
Porque é imensamente bom, e só.





sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A Música Urbana

O Ovo Cósmico, de Vladimir Kush

Se no texto abaixo foquei no eterno silêncio, a incompreensão total do mundo que segue um itinerário desconhecido, aqui tratarei da exclamação: a música urbana.
O Super-Herói teve suas vísceras comidas pelo nada, e agora, apático, se vê encarcerado no absurdo da vida. A barba por fazer reflete o descuido pela aparência, vaidade nula. Deixou de socorrer os inocentes também, convencido de que sempre haverão outros mil malfeitores, numa eterna máquina que deglute o bem e o mal perante a justiça de talião.
Acodar resultou-se inútil, dormir é prática de morte. A vida segue bagunçada no vazio.
Eis que em uma manhã se depara com a felicidade de duas mulheres, que riam a esmo e unidas. Uma delas passa o sorvete de casquinha no nariz da outra, lambuzando-a de chocolate.
Suas bocas movimentavam-se de modo agitado, parecendo vários pontinhos pintados e enérgicos, exatamente como milhares de átomos em movimento, ou uma pintura expressionista. Esta imagem do samba pictórico era comovente para ele: num mundo sem estações, sem a visível diferença do inverno, verão, primavera ou outono, as bocas agitadas produziam impacto, sensação de calor e frio nele.
Questionou-se do nada e do silêncio. Se a vida é uma tremenda incerteza, o que valeria o percurso se este resulta na morte, e durante o mesmo, caminhassemos eternamente perdidos? Quero dizer: como os lábios das moças dançam em uma realidade tal qual ele estava vivendo?
Decidiu aproximar-se lentamente delas. Talvez tivessem descoberto algo que ainda não lhe foi revelado.
Perguntou:
— Moças... O que as impulsiona a rir e gozar da vida, quando estamos presos no mesmo quadro sem bordas?
As duas param. Uma que usava uma boina quadriculada responde de bate pronto:
— Sei lá.
Incorfomado, o Super-Herói retorna ao seu quarto. Como seria isto possível?
Não se pode agir de tal forma incongruente! A felicidade, então, só poderia ser a distração do nada, os momentos em que nos libertamos de seu fardo.
Esta visão lhe causava asco: alegria é a bebida dos fracos. Torpor, apenas.
Dormiu sozinho, sem mais aguentar o nada, este maldito silêncio de onde viemos e pra onde retornaremos. Doia demais, apertava a garganta. Resta a morte, apenas.
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Mas se existe algo humano, é o ápice inconfundível que em certos momentos ele sente, religando-o ao que há de mais fantástico em seu ser. Tal experiência dispensa perguntas, fomentando-se do hedonismo espiritual, e da nossa busca pelo sublime.
Estes momentos são pinturas mentais, o panorama das cores que surgem do riso, do choro e do amor. É o homem agindo sobre a vida, transformando-a ou simplesmente ignorando-a como uma ameba irracional. De qualquer forma, é a músia urbana de que falo a respeito, nosso fato incontestável de
estarmos vivos e, somente com isso, sermos capazes de influenciar o mundo ao redor, produzi-lo, reproduzi-lo, modificá-lo, inventá-lo. Quer queira ou não, a presença do homem já é um acorde.
E mesmo que o nada circunscreva o ser, afogando-o na agonia do silêncio, ele ainda possui os olhos, as mãos, os pés e o caminho a sua frente. O que fará ele com tais ferramentas?
Desgarrar-se da interrogação, e agir sob a força da exclamação: !
Marcará o mundo com seu silêncio ou grito; derrubará governos ou não; lutará em interesses anarquistas ou não; se revoltará contra o sistema ou não; constituirá família ou será contra ela; fará guerras ou não; matará em nome de um ideal ou não. Tudo são músicas, enlevos e declives sonoros enquanto ele estiver apto a praticar a cosmogonia com seu corpo.
A música urbana é o espaço entre o nada inicial e o nada final. Do silêncio vieste e do silêncio retornarás, não?
Felicidade, senhoras e senhores, não é a bebida dos fracos, como o Super-Herói pensou. Ser feliz é a
ambrosia dos fortes: viver sob o medo da felicidade.
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Mas o Super-Herói ainda questiona: o que me impulsiona e me adianta o "sim" da vida? O que me convida a ouvir e reproduzir a música urbana?
Se tamanha resposta acima não pode incentivar o raciocínio afirmativo da vida, é porque a experiência ainda não o tocou. O estado de religação força a nossa quebra da utilidade: a pergunta "pra quê encontrar nosso ápice" não encontra terreno fértil.
Apenas o gozo da dança e o coração a sentir é que respondem o porquê de levarmos a cabo o grande sim da vida.
Seria a felicidade um bom motivo para viver? Talvez.
O principal da música urbana é a melodia: enquanto o homem senti-la, irá, em certos momentos, abandonar o grande silêncio, o grande nada, a grande interrogação, a necessidade das respostas.
O que esta música canta?
Canta o que te vibra, ser.