Beijos são muitos, milhares, bilhares. Não existe essa de alguém beijar bem ou mal: a língua está longe de avaliações.
O que existe são línguas tímidas e/ou expansivas, egoístas e/ou altruístas, medrosas e/ou charmosas. Cada uma com personalidade própria, entrosando com papilas gustativas alheias, se descobrindo e ampliando todas as próprias possibilidades.
Beijo bom ou ruim não existe; o que existe é uma boca gostosa e que atende bem aos parâmetros anatômicos/psicológicos da nossa. Às vezes o encaixe favorece, às vezes não.
Não caiemos na predileção, adotando medidas rigorosas para um ótimo estalar de lábios. Beijo não é “Top 10 hits da Madonna”, beijo não é professora de caligrafia, beijo não é teste de audição. Beijo é sensação estética, profundo momento artístico de contemplação.
E mesmo que não haja êxtase, paciência. A música que não soa bem às vezes é por culpa da cera em nossos ouvidos, e não da guitarra doida espacial.
Pergunte então sobre o juízo: subjetivo ou interpessoal?
Quero dizer, nossos apontamentos são puramente exclusivos ou atendem aos valores de uma sociedade?
Ah, a historicidade do beijo. O belo não só varia de indivíduo para indivíduo, mas também de sociedade para sociedade; e quem sabe o beijo também não? Vai saber como Sócrates, Descartes ou Locke beijavam.
Mas espera. Comparar a arte com o beijo é supor que não há somente a expressão emocional, a catarse das papilas, mas também a técnica do ósculo.
Para que soe o acorde, é necessário também o treino do mesmo. Feeling e prática. Mas e o beijo?
Será que existe um manual do beijo?
Será que existem escolas do beijo?
E profissionais do beijo?
Não sei, não sei. O que me basta é a psicologia da língua: conhecê-la e desvendá-la toda. Sem bom ou ruim, apenas o movimento, os desencaixes e as torções.
Tá, mas e quem tem mal hálito ou bate os dentes?
É uma boca medrosa. Para corrigi-la, ou utilizamos a ironia e depois a maiêutica, a convertendo pela dúvida de que talvez não seja a boca mais fantástica do mundo, reduzindo a petulância aos poucos, ou sejamos comportamentais, tacando-lhe o inseticida: reforço negativo.
Brincadeira. Bocas assim ainda não cresceram, e não tomaram consciência da própria existência.
Ou simplesmente acordaram de mal humor.
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sábado, 14 de fevereiro de 2015
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
A Música Urbana
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| O Ovo Cósmico, de Vladimir Kush |
Se no texto abaixo foquei no eterno silêncio, a incompreensão total do mundo que segue um itinerário desconhecido, aqui tratarei da exclamação: a música urbana.
O Super-Herói teve suas vísceras comidas pelo nada, e agora, apático, se vê encarcerado no absurdo da vida. A barba por fazer reflete o descuido pela aparência, vaidade nula. Deixou de socorrer os inocentes também, convencido de que sempre haverão outros mil malfeitores, numa eterna máquina que deglute o bem e o mal perante a justiça de talião.
Acodar resultou-se inútil, dormir é prática de morte. A vida segue bagunçada no vazio.
Eis que em uma manhã se depara com a felicidade de duas mulheres, que riam a esmo e unidas. Uma delas passa o sorvete de casquinha no nariz da outra, lambuzando-a de chocolate.
Suas bocas movimentavam-se de modo agitado, parecendo vários pontinhos pintados e enérgicos, exatamente como milhares de átomos em movimento, ou uma pintura expressionista. Esta imagem do samba pictórico era comovente para ele: num mundo sem estações, sem a visível diferença do inverno, verão, primavera ou outono, as bocas agitadas produziam impacto, sensação de calor e frio nele.
Questionou-se do nada e do silêncio. Se a vida é uma tremenda incerteza, o que valeria o percurso se este resulta na morte, e durante o mesmo, caminhassemos eternamente perdidos? Quero dizer: como os lábios das moças dançam em uma realidade tal qual ele estava vivendo?
Decidiu aproximar-se lentamente delas. Talvez tivessem descoberto algo que ainda não lhe foi revelado.
Perguntou:
— Moças... O que as impulsiona a rir e gozar da vida, quando estamos presos no mesmo quadro sem bordas?
As duas param. Uma que usava uma boina quadriculada responde de bate pronto:
— Sei lá.
Incorfomado, o Super-Herói retorna ao seu quarto. Como seria isto possível?
Não se pode agir de tal forma incongruente! A felicidade, então, só poderia ser a distração do nada, os momentos em que nos libertamos de seu fardo.
Esta visão lhe causava asco: alegria é a bebida dos fracos. Torpor, apenas.
Dormiu sozinho, sem mais aguentar o nada, este maldito silêncio de onde viemos e pra onde retornaremos. Doia demais, apertava a garganta. Resta a morte, apenas.
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Mas se existe algo humano, é o ápice inconfundível que em certos momentos ele sente, religando-o ao que há de mais fantástico em seu ser. Tal experiência dispensa perguntas, fomentando-se do hedonismo espiritual, e da nossa busca pelo sublime.
Estes momentos são pinturas mentais, o panorama das cores que surgem do riso, do choro e do amor. É o homem agindo sobre a vida, transformando-a ou simplesmente ignorando-a como uma ameba irracional. De qualquer forma, é a músia urbana de que falo a respeito, nosso fato incontestável de
estarmos vivos e, somente com isso, sermos capazes de influenciar o mundo ao redor, produzi-lo, reproduzi-lo, modificá-lo, inventá-lo. Quer queira ou não, a presença do homem já é um acorde.
E mesmo que o nada circunscreva o ser, afogando-o na agonia do silêncio, ele ainda possui os olhos, as mãos, os pés e o caminho a sua frente. O que fará ele com tais ferramentas?
Desgarrar-se da interrogação, e agir sob a força da exclamação: !
Marcará o mundo com seu silêncio ou grito; derrubará governos ou não; lutará em interesses anarquistas ou não; se revoltará contra o sistema ou não; constituirá família ou será contra ela; fará guerras ou não; matará em nome de um ideal ou não. Tudo são músicas, enlevos e declives sonoros enquanto ele estiver apto a praticar a cosmogonia com seu corpo.
A música urbana é o espaço entre o nada inicial e o nada final. Do silêncio vieste e do silêncio retornarás, não?
Felicidade, senhoras e senhores, não é a bebida dos fracos, como o Super-Herói pensou. Ser feliz é a
ambrosia dos fortes: viver sob o medo da felicidade.
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Mas o Super-Herói ainda questiona: o que me impulsiona e me adianta o "sim" da vida? O que me convida a ouvir e reproduzir a música urbana?
Se tamanha resposta acima não pode incentivar o raciocínio afirmativo da vida, é porque a experiência ainda não o tocou. O estado de religação força a nossa quebra da utilidade: a pergunta "pra quê encontrar nosso ápice" não encontra terreno fértil.
Apenas o gozo da dança e o coração a sentir é que respondem o porquê de levarmos a cabo o grande sim da vida.
Seria a felicidade um bom motivo para viver? Talvez.
O principal da música urbana é a melodia: enquanto o homem senti-la, irá, em certos momentos, abandonar o grande silêncio, o grande nada, a grande interrogação, a necessidade das respostas.
O que esta música canta?
Canta o que te vibra, ser.
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