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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A Música Urbana

O Ovo Cósmico, de Vladimir Kush

Se no texto abaixo foquei no eterno silêncio, a incompreensão total do mundo que segue um itinerário desconhecido, aqui tratarei da exclamação: a música urbana.
O Super-Herói teve suas vísceras comidas pelo nada, e agora, apático, se vê encarcerado no absurdo da vida. A barba por fazer reflete o descuido pela aparência, vaidade nula. Deixou de socorrer os inocentes também, convencido de que sempre haverão outros mil malfeitores, numa eterna máquina que deglute o bem e o mal perante a justiça de talião.
Acodar resultou-se inútil, dormir é prática de morte. A vida segue bagunçada no vazio.
Eis que em uma manhã se depara com a felicidade de duas mulheres, que riam a esmo e unidas. Uma delas passa o sorvete de casquinha no nariz da outra, lambuzando-a de chocolate.
Suas bocas movimentavam-se de modo agitado, parecendo vários pontinhos pintados e enérgicos, exatamente como milhares de átomos em movimento, ou uma pintura expressionista. Esta imagem do samba pictórico era comovente para ele: num mundo sem estações, sem a visível diferença do inverno, verão, primavera ou outono, as bocas agitadas produziam impacto, sensação de calor e frio nele.
Questionou-se do nada e do silêncio. Se a vida é uma tremenda incerteza, o que valeria o percurso se este resulta na morte, e durante o mesmo, caminhassemos eternamente perdidos? Quero dizer: como os lábios das moças dançam em uma realidade tal qual ele estava vivendo?
Decidiu aproximar-se lentamente delas. Talvez tivessem descoberto algo que ainda não lhe foi revelado.
Perguntou:
— Moças... O que as impulsiona a rir e gozar da vida, quando estamos presos no mesmo quadro sem bordas?
As duas param. Uma que usava uma boina quadriculada responde de bate pronto:
— Sei lá.
Incorfomado, o Super-Herói retorna ao seu quarto. Como seria isto possível?
Não se pode agir de tal forma incongruente! A felicidade, então, só poderia ser a distração do nada, os momentos em que nos libertamos de seu fardo.
Esta visão lhe causava asco: alegria é a bebida dos fracos. Torpor, apenas.
Dormiu sozinho, sem mais aguentar o nada, este maldito silêncio de onde viemos e pra onde retornaremos. Doia demais, apertava a garganta. Resta a morte, apenas.
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Mas se existe algo humano, é o ápice inconfundível que em certos momentos ele sente, religando-o ao que há de mais fantástico em seu ser. Tal experiência dispensa perguntas, fomentando-se do hedonismo espiritual, e da nossa busca pelo sublime.
Estes momentos são pinturas mentais, o panorama das cores que surgem do riso, do choro e do amor. É o homem agindo sobre a vida, transformando-a ou simplesmente ignorando-a como uma ameba irracional. De qualquer forma, é a músia urbana de que falo a respeito, nosso fato incontestável de
estarmos vivos e, somente com isso, sermos capazes de influenciar o mundo ao redor, produzi-lo, reproduzi-lo, modificá-lo, inventá-lo. Quer queira ou não, a presença do homem já é um acorde.
E mesmo que o nada circunscreva o ser, afogando-o na agonia do silêncio, ele ainda possui os olhos, as mãos, os pés e o caminho a sua frente. O que fará ele com tais ferramentas?
Desgarrar-se da interrogação, e agir sob a força da exclamação: !
Marcará o mundo com seu silêncio ou grito; derrubará governos ou não; lutará em interesses anarquistas ou não; se revoltará contra o sistema ou não; constituirá família ou será contra ela; fará guerras ou não; matará em nome de um ideal ou não. Tudo são músicas, enlevos e declives sonoros enquanto ele estiver apto a praticar a cosmogonia com seu corpo.
A música urbana é o espaço entre o nada inicial e o nada final. Do silêncio vieste e do silêncio retornarás, não?
Felicidade, senhoras e senhores, não é a bebida dos fracos, como o Super-Herói pensou. Ser feliz é a
ambrosia dos fortes: viver sob o medo da felicidade.
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Mas o Super-Herói ainda questiona: o que me impulsiona e me adianta o "sim" da vida? O que me convida a ouvir e reproduzir a música urbana?
Se tamanha resposta acima não pode incentivar o raciocínio afirmativo da vida, é porque a experiência ainda não o tocou. O estado de religação força a nossa quebra da utilidade: a pergunta "pra quê encontrar nosso ápice" não encontra terreno fértil.
Apenas o gozo da dança e o coração a sentir é que respondem o porquê de levarmos a cabo o grande sim da vida.
Seria a felicidade um bom motivo para viver? Talvez.
O principal da música urbana é a melodia: enquanto o homem senti-la, irá, em certos momentos, abandonar o grande silêncio, o grande nada, a grande interrogação, a necessidade das respostas.
O que esta música canta?
Canta o que te vibra, ser.






quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O Nada

O Velho Homem Triste, de Van Gogh

Do silêncio vieste, do silêncio retornarás. Esta é a lei encoberta por todos, ignorada e pintada pela música urbana.
Entre um projeto e outro, entre uma aquisição e outra, beijo, estalo, vitória ou derrota, o nada cresce, surgindo em frente aos nossos olhos. Seu desconforto causado é logo tampado pela melodia da atividade. Mas sempre, sempre, ele estará ao nosso lado, ao lado do livro, da morte, do nascimento e do sexo, esperando o momento para se apossar de nossa mente, e suscitar a suprema angústia.
Chamo este componente inexorável da vida de "O Dia de Amanhã do Super-Herói". Imaginem que este ser realizou a proeza de salvar o mundo de um cataclismo, protegendo todas as almas indefesas com seus músculos de ferro. Consumado o ato, ele comemora sua vitória. O planeta inteiro agradece, condecorações surgem e estátuas são erigidas em sua homenagem.
Pergunto, então, o que fará o Super-Herói após ter atingido seu ápice. A interrogação é mais crua do que se pensa: acordará cansado, relembrará a glória e sorrirá satisfeito. Mas e agora?
Agora o que se apossa dele é o nada, eterno nada. O mundo mantém sua atividade e a vida tragicamente segue sem explicações. 
Como? Não salvara o mundo? Não surpreendera a todos? Não utilizara todo seu esforço, máximo esforço, suprema força de vontade? Por que diabos a vida seguiria, então?
Neste momento, o Super-Herói olha fixamente para o teto, incrédulo com esta trapaça da existência. Seu estômago dói de fome, mas recusa-se a se alimentar. A dignidade interrompe qualquer pequenez do dia a dia. 
Como poderia ele tomar banho, escovar os dentes, bater o carro, salvar mais inocentes — quiçá o mundo novamente — sem que a conta não tenha fechado?
Ele exige recompensas, e não a fome. Ele ordena que algo lhe diga o porquê de sua existência, o porquê da vida, o porquê de impedir o planeta de mais uma catástrofe.
Agora se despe de sua capa e chora como um humano, pois percebe o que assim o constitui: o invencível, indestrutível, o imenso, o gigantesco nada universal.
Do silêncio vieste e do silêncio retornarás. Basta agora que olhemos a janela desconectada com o mundo, observando a piscina distante do mosaico da compreensão. E o nosso dia de amanhã?
Há quem supere esta amorfa realidade, servindo-se da utopia, o sonho que não deve parar de ser perseguido com ganas. Mas a questão é outra: e quando nos realizamos?
Existe, de fato, satisfação?
Penso que pouco posso falar com 17 anos, idade de improvável completude e improváveis supremas realizações. E muito menos de sentir angústia da insatisfação do que não foi feito.
Ainda planto, e lá mais adiante, colherei. Que a crise da meia idade venha, mas em tempo certo, pelo menos.
Infelizmente o nada me atraiu, e me persegue com seu imenso mistério da verdade.
Este é o nada: silêncio embaraçoso. Fazer o bem a vida inteira e de repente falecer por um raio ou batida de carro. Inacreditável, não? É o nada.
Entrar numa padaria e encontrar o amor da sua vida. Mas desistir dele porque amor à primeira vista também acontece outras vezes. É o nada.
Ver em sua frente seu filho recém-nascido, e nunca amá-lo durante a vida inteira. O nada novamente.
Entenderam a profunda desconexão que ele sugere? É a quebra total da simetria e de ligações com a realidade exterior. Esfacelação da sincronia, da moral, do curso óbvio que o rio segue. O dinheiro do tráfico que vai para a caridade. O incomensurável amor de Hitler por cachorros. 
Senhoras e senhores, este é o silêncio: terceirizar o ser e colocá-lo diante do mundo, não mais existindo como pertencente a ele. Somos jogados para fora da teia mundana ao questionarmos a própria.
O nada causa ansiedade, medo, tensão, esvaziamento da vontade de vida, completa ausência de seu sentido.
Mas a vida não é feita somente deste silêncio absurdo: amanhã tratarei de seu complemento, que é a música urbana.